- O curador Paul Maréchal lança livro que examina o trabalho têxtil de Warhol, com pouco mais de duzentos designs catalogados, incluindo padrões dos anos cinquenta e roupas serigrafadas dos anos sessenta a oitenta.
- A parceria com a boutique Fleming-Joffe de St. Louis rendeu retratos publicitários e até um livro infantil, The Wonderful World of Fleming-Joffe, de 1960, inspirado por répteis da marca.
- O artista foi inspirado pela cobra Noa, companhia do proprietário Arthur Edelman, e criou estampas com onze serpentes entrelaçadas para o toldo da loja.
- Por volta da década de sessenta, Warhol abandonou têxteis para fabricantes e passou a usar vestidos de celulose e algodão como suporte para serigrafia, com estampas de obras como Fragile, Open This End e Handle with Care.
- Entre o fim dos anos setenta e início dos anos oitenta, Warhol passou a produzir camisetas serigrafadas com logos de Brillo, Hershey, Campbell’s e Coca‑Cola, antecipando o vocabulário do Pop Art em suas peças têxteis.
Warhol deixou marcas no mundo têxtil ao longo de três décadas, explorando tecidos, estampas e roupas com a mesma ousadia que marcou sua arte multimídia. Um novo livro, da curadora de Montreal Paul Maréchal, revisita esse aspecto pouco conhecido de seu legado e catalogou pouco mais de 200 designs têxteis criados pelo artista. O estudo mostra como esse trabalho preparou o terreno para a estética Pop que viria a definir sua produção.
O primeiro ponto destacado envolve uma encomenda decisiva no início da carreira têxtil de Warhol. Em St Louis, Missouri, ele criou um toldo para a boutique Fleming-Joffe, de propriedade dos irmãos Arthur e Teddy Edelman. Além do toldo, a parceria incluiu ilustrações publicitárias e um livro para colorir temático, publicado em 1960. A partir dessas obras, Warhol incorporou elementos de vida cotidiana e de branding na sua prática.
O pesquisador aponta que o uso de serpentes e outros motivos animais surgiu ligado à promoção da própria marca. Segundo Maréchal, o empresário Arthur Edelman mantinha uma jibóia chamada Noa, que acompanhava as ações da boutique. No toldo, Warhol desenhou 11 cobras entrelaçadas em tons pastéis sobre fundo amarelo, criando um padrão visual dinâmico que chamou a atenção dos transeuntes.
No segmento seguinte, o foco passa para a transição de suportes têxteis mais acessíveis. Por volta de 1963, Warhol deixou de produzir tecidos para fabricantes e, em 1966, passou a trabalhar com celulose e vestidos de algodão nas lojas Abraham & Straus, no Brooklyn. Esses diversos vestidos serviram como telas para a silk-screen, incluindo reproduções de obras como Fragile, Open This End e Handle with Care. A mudança reforçou a independência artística do artista, segundo o pesquisador.
Ainda em 1966, Warhol utilizou silkscreen ao vivo em vestidos usados por Nico, da Velvet Underground, evidenciando a autonomia criativa que o formato conferia. O livro aponta que o uso de celulose e algodão ampliou o repertório de Warhol para além da pintura, ampliando as possibilidades de diálogo entre arte e moda.
A partir de 1979, a produção de camisetas passou a incorporar logos de marcas presentes em trabalhos anteriores, marcando uma virada. Warhol criou camisetas com Brillo, Hershey, Campbell’s Soup e Coca‑Cola, inicialmente em preto e branco e depois com o Brillo em vermelho. O conjunto de peças, entre 1978 e 1979, foi produzido durante a fase de sua série Big Retrospective Painting, em que grandes telas recebiam a repetição de símbolos e motivos já reconhecíveis.
Para Maréchal, o que fica claro é que a prática têxtil de Warhol antecipou o vocabulário visual do Pop Art que ele consolidaria nas décadas seguintes. A repetição de imagens cotidianas e a exploração de itens de consumo aparecem como traços que cruzam a produção têxtil e a obra plástica, evidenciando uma continuidade entre experiências médias e a linguagem artística do artista.
Entre na conversa da comunidade