- O sistema de cultivo chagra reúne pequenos lotes de até dois hectares, sincronizados com os ciclos da floresta, e as áreas são devolvidas à mata após cinco a seis anos de uso.
- Em Miriti-Paraná, cada família mantém duas ou três chagras; antes do plantio, anciãos pedem permissão aos espíritos da floresta e o manejo é feito de forma comunitária, com a queima controlada para preparar o terreno.
- A yuca é o alimento básico e cada chagra pode abrigar 67 tipos de plantas, incluindo coca, com vínculos culturais que associam a planta às identidades de gênero; há preferência por espécies que forneçam alimento, seguido de uso medicinal e, depois, cultivo comercial.
- Pesquisas indicam maior biodiversidade e capacidade de armazenar carbono nas chagras, que costumam manter entre eighty e cento e cinquenta tipos de espécies, e podem gerar renda para comunidades por meio de cooperativas como a Kallari.
- Desafios atuais incluem garimpo e desmatamento, mudanças climáticas que afetam calendários ecológicos e pragas; comunidades trabalham para preservar o sistema e seu papel cultural diante dessas ameaças.
Everything has its own order and purpose: as áreas de floresta revelam, o sistema chagra é a base de produção alimentar na Amazônia. Kelly Johanna Yucuna cuida de um lote na Colômbia, no coração da Amazônia, onde cada planta tem função definida.
O sistema chagra organiza pequenos terrenos, até dois hectares, sincronizados com os ciclos ecológicos da floresta. É lá que Yucuna e 240 famílias da reserva Jaguares del Yuruparí constroem sua alimentação, com base em práticas milenares.
A ideia central é manter a fauna local e o carbono armazenado. Os lotes são usados por cerca de cinco a seis anos e depois são devolvidos à mata. Pesquisas indicam que esse modelo existe há pelo menos 4,5 mil anos na região.
Ainda que pareça inusitado, o manejo respeita calendários ecológicos de frutas, cheias, pesca e caça. O exercício envolve conhecimentos cosmológicos de cada grupo indígena e a participação da comunidade na prática agrícola.
Na Miriti-Paraná, cada família costuma manter duas ou três chagras: uma nova, outra produtiva e uma em declínio. Antes de plantar, anciãos buscam consentimento dos espíritos da floresta para transformar os habitats dos animais e plantas.
O preparo envolve uma etapa coletiva chamada socola y tumba, com cortes e desmatamento tradicional. Empresas locais explicam que, embora haja remoção de árvores, o objetivo é selecionar espécies adequadas e manter a biodiversidade.
Estudos mostram que as chagras mantêm cerca de metade das espécies arbóreas nativas. Elas apresentam maior biodiversidade que lavouras monocultoras e armazenam mais carbono, com níveis próximos aos de florestas secundárias.
A primeira semeadura costuma incluir yuca, milho de fruto e outras raízes, com plantio iniciado por mulheres após um período de queima controlada. Em Miriti Paraná, o manejo ocorre antes de junho, com colheita inicial após um ano.
A yuca é considerada alimento básico na região e representa grande parte das plantações. Em alguns lotes, a yuca chega a representar quase 97% das espécies cultivadas, segundo pesquisadores locais.
Cada grupo cultiva até 67 tipos de plantas, combinando raízes, frutas, pimentas e plantas medicinais. A yuca é associada a vínculos de parentesco entre mulheres e homens, segundo estudos antropológicos.
O ecossistema da chagra abre espaço para 104 espécies diferentes na área de Jaguares del Yuruparí, com variedades que vão de mandioca a cacau, bananas, açaí, calabazas e plantas medicinais. A ideia é que cada planta tenha função alimentar, medicinal ou cultural.
Ao cultivar, as comunidades também preservam a relação entre homem e natureza. A prática busca adaptar-se às condições locais e contrasta com a agricultura industrial, que depende de insumos químicos e desmatamento.
Após cerca de cinco ou seis anos, a chagra é devolvida ao dono espiritual, com a replantações de árvores e retorno gradual da mata. A área passa a servir para colheita de frutos ou caça, mantendo o ciclo do ecossistema.
Economia e cacao. Em algumas regiões, as chagras já geram renda para famílias, além da alimentação. No Equador, por exemplo, chakras envolvem cacau, vanilla e guayusa em dezenas de milhares de hectares.
Cooperativas locais recebem apoio e, em alguns casos, recebem reconhecimento internacional. Projetos de cooperação apontam que a produção de cacau sustentável pode representar 40% a 60% da renda comunitária, com prêmios por qualidade de aroma.
Em uma das cooperativas, a Kallari, a venda de cacau premium atingiu até 2 milhões de dólares por ano para 740 sócios. Mesmo assim, a prática mantém a diversidade de espécies, com 80 a 150 plantas por área além do cacau.
Defesa ambiental. Territórios geridos por povos originários são apontados como uma das formas mais eficazes de conter o desmatamento na região. A chagra é vista como parte integrante da gestão territorial ancestral.
Contudo, há entraves. A mineração de ouro na região gera contaminação por mercúrio e preocupa a proteção de identidades e segurança alimentar, com decisões judiciais recentes em Colombia sobre o tema.
A atuação de mineração atrai jovens, especialmente no Equador, desviando-os da agricultura tradicional, segundo lideranças locais. A falta de oportunidades também pressiona deslocamentos forçados.
Mudanças climáticas potencializam riscos: seca, variações nos cursos d’água e menor disponibilidade de caça e pescado dificultam o manejo das chagras. Estudos indicam alterações nos calendários ecológicos.
Novos problemas chegam com pragas e variações no regime de chuvas. Yucuna relata que o calor ao meio-dia dificulta o trabalho nas chagras, exigindo adaptação constante das famílias.
Contexto regional. A pressão de áreas urbanas próximas e reservas mais populosas impacta o funcionamento das chagras. Em alguns locais do Equador, há maior pressão para ampliar a produção de cacau, elevando tensões com o manejo tradicional.
Em resumo, as chagras aparecem como sistema de produção alimentar e conservação ambiental que acompanha a cosmologia indígena. O objetivo é sustentar comunidades, preservar culturas e manter a floresta em equilíbrio, apesar dos desafios impostos pelo ambiente atual.
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