- O nível do lago Turkana subiu entre oito e dez metros nos últimos quinze anos, ampliando a área em cerca de dez por cento e provocando deslocamentos em Kalokol.
- Natole, vila ancestral, foi abandonada; a igreja onde se rezava fica submersa e o pescador local já mudou de casa três vezes desde 2014.
- A situação está ligada à construção da Barragem Gibe III, no rio Omo, cuja operação altera o fluxo de água e o ecossistema do lago, gerando debates sobre as causas do aumento de nível.
- A produção pesqueira no lago apresenta variações: foi de seis mil trezentos e quarenta toneladas em 2010 para dezessete mil duzentas e cinquenta e um em 2022, caindo para cerca de quinze mil seiscentas toneladas em 2023; pescadores relatam menos peixes maiores.
- Esforços com UNESCO, Programa Alimentar Mundial e governos locais, financiados pela Holanda, buscam criar uma base de dados mais consistente para políticas e manejo sustentável, mas infraestrutura básica permanece limitada (aproximadamente dois por cento dos locais de desembarque têm eletricidade e cinco por cento têm água potável).
Rising waters e pressões crescentes se deterioram na região do Lago Turkana, no norte do Quênia. Em Kalokol, a comunidade pesqueira relata deslocamentos contínuos, infraestrutura submersa e menor disponibilidade de peixes. O lago, o maior lago desértico permanente do mundo, avança lentamente desde a última década.
Ao longo dos últimos 15 anos, o nível do Lago Turkana subiu entre 8 e 10 metros, expandindo sua área de superfície em cerca de 10%. Em Kalokol, centenas de moradores foram deslocados pela subida das águas, incluindo a vila Natole, que ficou totalmente abandonada. O deslocamento ocorre em meio a secas recorrentes na região.
A situação é registrada por moradores e pesquisadores. A comunidade local aponta que a elevação das águas mudou áreas de pesca, abrigo e acesso a água potável, agravando a vulnerabilidade de famílias que dependem do lago para sustento. A falta de apoio institucional preocupa os moradores.
Ebbs and flows
Ikal Angelei, ambientalista que atua na região, relata que o conjunto de mudanças começou na década de 1980 e ganhou impulso com a construção da barragem Gibe III, na Etiópia, e com chuvas intensas em anos recentes. Pesquisadores divergem sobre as causas exatas da elevação, entre variações climáticas e impactos hidrológicos.
Milton Obiero, pesquisador do KMFRI, destaca que o Lago Turkana passou a responder de forma diferente aos extremos de regime hídrico, e que dados confiáveis sobre a pesca eram escassos até pouco tempo. Esforços atuais visam mapear estoques de peixes, pressão de pesca e resposta a mudanças de nível.
Kamazima Lwiza, físico marinho, aponta que o ciclo de cheias é perturbado pela ausência de fluxo pulsátil após a construção da barragem, afetando ecossistemas e a distribuição de espécies, especialmente perto da costa. A pesca artesanal conhecida na região tem sido fortemente impactada.
Ruins of Turkana
Ao fundo de Kalokol fica a antiga fábrica NORAD, instalada na década de 1970 para desenvolver a indústria pesqueira regional. A instalação foi abandonada após dificuldades logísticas e falhas no modelo de transporte de pescado, agravadas pela seca que reduziu os caudais do Omo.
Especialistas associam o que chamam de “ruínas de Turkana” a projetos de desenvolvimento que não consideraram a variabilidade climática local e a mobilidade das comunidades. Muitos projetos recentes, incluindo barragens e atividades de óleo, reforçam a percepção de que políticas públicas não priorizam os meios de vida locais.
Entre as consequências, a disponibilidade de infraestrutura básica segue limitada. Estima-se que apenas uma pequena parcela das áreas de desembarque tem eletricidade, e o acesso à água potável permanece restrito, complicando a vida diária dos pescadores e processadores.
A trajetória das pessoas
Na linha de falésias de Kalokol, a produtora de peixe Gisele Masambi enfrenta jornadas de trabalho sob pressão. Mãe de 10 filhos, ela atua sem refrigeração adequada, competindo por mercados com transporte irregular. A redução de pesca e o tamanho menor dos peixes elevam o risco financeiro para quem depende do sustento local.
Enquanto a situação persiste, pesquisadores, ONGs e governos locais trabalham para criar uma base de dados mais consistente sobre o lago. O objetivo é orientar políticas públicas e práticas de manejo com foco na sustentabilidade, diante de mudanças contínuas no ambiente aquático.
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