- Estudo com mais de 35 mil dias de câmera estufa em 61 locais, entre 2022 e 2024, em condados de San Mateo e Orange, na Califórnia, mostra que a luz artificial à noite influencia mais o comportamento de animais selvagens do que o ruído.
- Pumas e bobcats evitaram áreas com iluminação forte, enquanto cervos-mulas (mule deer) passaram a usar esses espaços à noite como abrigo contra predadores.
- A iluminação artificial reduz a área de caça dos pumas, levando-os a buscar locais mais arriscados, perto de pessoas, carros ou animais de estimação, o que pode afetar condição corporal, reprodução e sobrevivência.
- Os autores sugerem medidas como luminárias voltadas para baixo, sensores de movimento, leis de céu escuro e corredores escuros conectados para permitir a movimentação da fauna pelas cidades.
- Diferenças entre os condados mostram que, em Orange, atividades de pumas ocorrem mais ao crepúscio e início da noite, enquanto em San Mateo há pico próximo das seis da manhã, refletindo padrões de atividade humana e iluminação.
A luz artificial à noite tem papel mais relevante na definição do comportamento de predadores e presas no limite urbano da Califórnia do que o barulho, aponta estudo com mais de 35 mil dias de imagens de armadilhas no condado de San Mateo e no condado de Orange, entre 2022 e 2024. A pesquisa analisou pumas, bobcats e mule deer para entender como a iluminação influencia as interações na transição entre ambiente natural e áreas urbanas.
Pumas e bobcats evitaram áreas bem iluminadas à noite, enquanto os mule deer passaram a explorar mais esses espaços sob a luz artificial. Segundo os autores, a luz reduz áreas de caça para os felinos e desloca-os para regiões de maior risco, com potenciais impactos a longo prazo na condição corporal, reprodução e sobrevivência.
A equipe descreve a luz artificial como um “filtro” espacial que separa predadores de presas, ao passo que oferece proteção aos herbívoros. Em áreas profundas de mata, a atividade noturna de pumas e bobcats era mais intensa, ao passo que na borda urbana a presença de carnívoros era quase nula, com os deer pastando sob o brilho da cidade.
Em que lugares e como ocorreu a pesquisa
O estudo utilizou 61 estações de armadilhas fotográficas em San Mateo e Orange. A coleta ocorreu entre 2022 e 2024, com foco em três alvos: puma, bobcat e mule deer. O artigo foi publicado na revista Urban Ecosystems.
Os padrões de atividade também variaram entre os condados. Em Orange, o pico de atividade dos pumas ocorria ao entardecer, enquanto em San Mateo o zênite ocorria por volta das 6 da manhã. Os autores atribuem isso à permanência de luzes e atividade humana mais tardias no sul da Califórnia e à paisagem mais escura no Bay Area.
Os mule deer, por sua vez, mostraram maior atividade nas primeiras horas da manhã em Orange e no início da noite em San Mateo, sugerindo ajuste temporal para evitar horários de maior presença de pumas. Bobcats mantiveram padrões estáveis entre os dois locais.
Implicações e recomendações
Os autores alertam que evitar áreas iluminadas impõe custo energético aos predadores, que perdem habitats de caça, aumentando a distância percorrida e o risco de encontros com pessoas, veículos ou animais domésticos. Com o tempo, isso pode afetar condicionamento, reprodução e sobrevivência das espécies.
Para mitigar o efeito, o estudo recomenda iluminação direcionada para baixo, sensores de movimento, regulamentações de céu escuro e corredores escuras conectados que permitam a circulação de fauna pelos espaços urbanos. Em áreas com aberto de parques e áreas naturais, medidas simples podem restaurar conectividade.
Os autores destacam que a poluição luminosa é reversível e que mudanças em dispositivos de iluminação já produzem melhorias no habitat. Planos urbanos devem considerar iluminação direcionada, desligamento de luminárias quando não houver permanência e zones de escuridão para facilitar a movimentação de espécies.
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