- Em 2025, o fim da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e cortes de ajuda provocaram fechamento de clínicas, ausência de medicamentos e aumento de mortes evitáveis; o financiamento global caiu 21% em um ano, de US$ 49,6 bilhões para US$ 39,1 bilhões.
- No leste de Uganda, Khadijah Kantono teve parto complicado, mas foi salvo pela rápida atuação de parteira e médico, destacando a importância de trabalhadores de saúde capacitados.
- Um mapeamento global realizado por Seed Global Health e a Escola de Saúde Pública de Harvard mostrou consenso sobre a necessidade de países liderarem suas estratégias de saúde, com financiamento sustentável e maior mobilização de recursos internos, apesar da fragmentação persiste.
- Os principais gargalos são implementação, capacidade institucional, sistemas operacionais e mão de obra, gerando descompasso entre ambições e capacidade de entrega.
- O caminho envolve reduzir a fragmentação, criar uma via de financiamento coordenado e fortalecer plataformas de entrega, com Uganda citado como exemplo de alinhamento entre financiamento doméstico e externo; Mbale Hospital registrou queda de mortalidade materna (47%).
Em Uganda, uma mãe de nove filhos recebeu atendimento rápido que salvou sua vida durante o parto, sinalizando a importância de sistemas de saúde bem estruturados diante de cortes de ajuda internacional. Khadijah Kantono foi levada a um centro de saúde no leste do país, onde a parteira Irene Koote reconheceu sinais de risco, estabilizou a paciente e acionou o médico para intervenção imediata. Após o parto, o médico realizou cirurgia de emergência com apoio da parteira, removendo o útero dilacerado. Kantono sobreviveu graças à presença de profissionais habilitados.
A história cotidiana de Kantono ilustra o que está em jogo quando a assistência internacional reduzida se espalha pelo mundo. Em 2025, a dissolução da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional e cortes de ajuda por governos doadores provocaram fechamento de clínicas, desaparecimento de medicamentos e de profissionais, com aumento de mortes evitáveis. A reação internacional aponta para fragilidade de um modelo de saúde global excessivamente dependente de projetos pontuais.
Desafios e convenções globais
Pesquisas da Seed Global Health e da Harvard School of Public Health mapeiam reformas de saúde globais, destacando cinco aprendizados: existe consenso sobre a necessidade de reformas, mas a fragmentação aumenta; o financiamento continua a moldar prioridades; a implementação é o principal gargalo; e a demora em alinhar financiamento, prazos e metas pode frear avanços em HIV, tuberculose, malária e saúde da mulher. A cartografia aponta ainda a falta de um processo reformador único e coeso.
A reportagem aponta que, apesar da aceitação de governança nacional fortalecida, decisões de financiamento ainda são fortemente influenciadas por interesses geopolíticos e econômicos de doadores. A principal barreira permanece a implementação eficaz, com déficit de capacidade institucional, sistemas operacionais e força de trabalho.
Caminhos propostos
Para avançar, os especialistas defendem passar de princípios para planos concretos, definindo um roteiro comum de reformas, plataformas de implementação e responsabilidades claras. A coordenação entre iniciativas deve reduzir a fragmentação, com financiamento mais previsível e uma única plataforma de entrega para fortalecer sistemas nacionais. Países devem ter possibilidade de contestar acordos que não estejam alinhados com prioridades locais.
Além disso, é essencial fortalecer capacidades institucionais, governança, sistemas operacionais e força de trabalho. A transição de financiamento deve ser realista, com caminhos tangíveis para maior mobilização de recursos domésticos, evitando riscos excessivos ao assumir responsabilidades sem capacidade de entrega.
Exemplos e resultados no terreno
Em Mbale, próximo de onde Kantono residia, parceria entre o Ministério da Saúde e a Seed Global Health reduziu a mortalidade materna em 47% no ano anterior, mesmo diante de cortes de ajuda externa. O avanço foi possível graças à priorização governamental, ao aumento de recursos e ao fortalecimento da formação e retenção da força de trabalho.
O caso de Uganda evidencia como liderança nacional, alinhamento de recursos e foco em resultados podem sustentar melhorias em saúde. A mobilização de financiamentos domésticos, aliada a parcerias estratégicas, é citada como modelo possível para outras nações, desde que haja um planejamento de longo prazo e capacidades institucionais estáveis.
Caminhando para o futuro
A comunidade global de saúde enfrenta uma encruzilhada entre reformas fragmentadas e um sistema coeso capaz de entregar atendimento de qualidade a milhões. A construção de estratégias nacionais fortalecidas, com alinhamento entre financiadores e governos, aparece como chave para enfrentar desafios atuais e sustentar ganhos recentes.
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