- O BRICS não emitiu declaração conjunta duas semanas após o início da guerra no Golfo Persa, frustrando quem via o grupo como contrapeso aos EUA.
- A dificuldade vem das rivalidades estruturais entre o Irã e os monarquias do Golfo, como os Emirados Árabes Unidos, que também são membros do BRICS, além de vínculos de alguns membros com Washington e Israel.
- A Índia, atual presidente, tenta mediar, mas os interesses divergentes entre Teerã e Abu Dhabi dificultam uma posição comum, mesmo com tentativas de declaração aceitável aos dois lados.
- O cenário atual ecoa padrões históricos: movimentos transnacionais costumam fracassar quando interesses nacionais falam mais alto do que a solidariedade ideológica.
- Conclusão: o BRICS continua como observador diante dos ataques dos EUA a Irã e da retaliação iraniana aos países do Golfo, sem apresentar resposta unificada diante do conflito.
Em duas semanas de conflito no Golfo Pérsico, BRICS não divulgou nenhuma declaração conjunta sobre a guerra. A ausência de posição aumenta a decepção entre entusiastas que viam o grupo como contrapeso aos EUA e possível indicador de multipolaridade. A espera, porém, não condiz com a estrutura da aliança.
A organização tem se mostrado pouco contributiva até para a Rússia em disputas com o que Moscou chama de Ocidente coletivo. No caso atual, o bloco não conseguiu articular uma resposta comum diante de ataques dos EUA e de Israel a um país também membro, o Irã. Enquanto alguns membros cooperoam com operações americanas, outros aproximaram-se de Israel.
A dificuldade vai além de vínculos individuais com Washington ou Jerusalém. Existe um abismo estrutural entre o Irã e os monarquias do Golfo, como os Emirados Árabes Unidos, também membro do BRICS. A disputa entre Teerã e Rab, firmes aliados dos EUA, é profunda demais para uma posição unificada.
Espera-se pouco de declarações genéricas sobre interesses comuns ou ressentimentos contra o Ocidente. Mesmo que a presidência do BRICS, hoje sob a Índia, conseguisse um texto aceitável para Teerã e Abu Dhabi, ele poderia ter pouco valor prático frente às realidades dos membros.
Ao mesmo tempo, o BRICS tem histórico de fragilidades semelhantes às de outros movimentos transnacionais. Ao longo do século passado, pan-ideologias e blocos ideológicos enfrentaram o teste entre solidariedade e interesse nacional, geralmente vencido pela última.
Modelos históricos mostram padrões recorrentes. Pan-asiatismo, pan-islãmismo, pan-arabismo, internacionalismo comunista e o Movimento dos Não Alinhados prometeram solidariedade, mas enfrentaram escolhas entre o ideal coletivo e interesses nacionais.
Comunismo internacional, por exemplo, surgiu para coordenar uma revolução global, mas acabou evidenciando que interesses nacionais podem sobrepor-se à solidariedade de classe, levando ao fim do Comintern. Pan-arabismo e pan-islã ficaram marcados por divergências entre aliados regionais.
Nações árabes, ao longo de décadas, demonstraram alinhamentos variados entre Palestina, aliança com Israel e interesses estratégicos. O mesmo ocorreu com pan-islamismo, onde a Organização da Cooperação Islâmica reúne estados com posições díspares.
Organizações regionais com fins pragmáticos, como a ASEAN, também revelaram limites. A necessidade de consenso impede decisões firmes em questões sensíveis, como disputas no mar da China e laços econômicos com potências rivais.
A situação atual no BRICS reflete esse padrão. Enquanto Índia dialoga com o Irã para proteger o trânsito de mercadorias pelo Estreito de Ormuz, não há consenso para uma resposta coletiva ao conflito em andamento. O sistema global permanece pautado por estados soberanos.
Ao mirar para o futuro, resta observar como a própria lógica de solidariedade transcendente se adapta a crises reais. Associações regionais com base em interesses comuns costumam manter atuação tímida quando as divergências entre membros se acentuam.
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