- O Banco Central (BC) está muito perto de reconhecer que precisará fazer uma pausa no ciclo de cortes de juros, segundo o diretor de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos.
- Ramos defende que dois cortes de 25 pontos-base, com sinalização de passos futuros abertos, seriam apropriados, mas ressalva que o BC não deveria cortar sob condições normais.
- O trio de choques citado envolve alta de preços por oferta global de petróleo, pressão de combustíveis sobre custos de alimentos e demanda aquecida pela atividade econômica.
- O governo tem adotado medidas consideradas de hiperativismo fiscal, com estímulo à demanda que, segundo Ramos, equivale a cerca de 1,1% a 1,3% do PIB, complicando a queda da inflação para a meta.
- No câmbio, o real tem se fortalecido pela demanda por juros altos e pela entrada de capital estrangeiro, mas há riscos relacionados à normalização do petróleo no Oriente Médio e à volatilidade eleitoral.
A possibilidade de pausa no ciclo de cortes de juros no Brasil ganha força entre agentes do mercado, diante de inflação elevada, atividade econômica resiliente e estímulos do governo. A avaliação é de Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, em entrevista à Bloomberg Línea.
Ramos afirma que o espaço para cortes tem se apresentado cada vez menor sem uma solução para a retomada dos fluxos de petróleo no Oriente Médio. Segundo ele, o BC está muito perto de reconhecer a necessidade de uma pausa, dadas as pressões inflacionárias e o hiato positivo do produto.
O executivo destaca que dois cortes de 25 pontos-base, com sinalização de continuidade, parecem adequados, mas apenas se o juro não estiver tão restritivo. Ele lembra que o BC começou o ciclo de cortes após a guerra no Irã e enfrenta três choques: oferta mundial de petróleo, inflação doméstica com combustíveis e demanda aquecida.
Perspectiva sobre a pausa do Copom
Ramos aponta que a inflação não converge à meta dentro de seis trimestres, conforme projeções do próprio BC. Em três a quatro trimestres, a inflação ainda aparece elevada, o que justificaria uma pausa para recalibrar a política. A probabilidade desse cenário tem aumentado, embora ainda não seja dominante.
Ele avalia que o BC tende a continuar com cortes graduais de 0,25 ponto, mas pode sinalizar a interrupção do ciclo caso a inflação não melhore, o choque de petróleo se intensifique ou o crescimento se consolide acima do esperado. A deterioração das expectativas inflacionárias também seria um gatilho para parar.
Pressões fiscais e impacto no dólar
Ramos ressalta que o BC enfrenta pressão adicional por um hiperativismo fiscal do governo, com medidas que estimulam a demanda em ano eleitoral. Ele estima que as medidas quase fiscais e o impulso ao crédito chegam a 1,1% a 1,3% do PIB, o que complica a inflação.
No cenário externo, o dólar tem sido favorecido pela taxa de juros elevada no Brasil. Segundo o economista, o real permanece em demanda por carry trade e pelos termos de troca favoráveis, mas a volatilidade pode aumentar com eventuais mudanças no Oriente Médio e com novo ciclo eleitoral brasileiro.
O consultor indica ainda que o Brasil deve manter a taxa Selic em patamar acima do neutro por pelo menos mais dois anos, o que sustenta o carry e sustenta fluxos cambiais, mas envolve riscos relacionados a choques externos e à dinâmica eleitoral.
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