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Mineração de areia no Mekong pode ameaçar o maior lago de água doce do Sudeste Asiático, diz estudo

Mineração de areia no Mekong reduz o pulso de inundação que alimenta Tonle Sap Lake, elevando risco de enchentes e erosão no maior lago de água doce do Sudeste Asiático

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  • Estudo mostra que a extração de areia no Mekong, principalmente na porção inferior, reduz o pulso de inundação que alimenta o Tonle Sap, o maior lago de água doce do Sudeste Asiático.
  • O alargamento do canal do rio, com remoção de areia, já deixou a margem do leito mais profunda em cerca de 2 a 3 metros nos últimos vinte anos, diminuindo o fluxo de água durante as enchentes.
  • Entre 1998 e 2018, o fluxo reverso do Mekong para Tonle Sap caiu entre quarenta e cinquenta por cento, reduzindo o tamanho do lago na estação úmida.
  • Com menos água retornando ao Tonle Sap, até 26 quilômetros cúbicos de água seguem para o delta durante a monção, elevando o risco de inundações e erosão de margens.
  • Se a extração de areia seguir no ritmo atual, até 2038 o pulso de cheia pode recuar até 69% e o tamanho do lago na estação úmida pode encolher até 40% em relação a 1998; governança e gestão de sedimentos são apontadas como essenciais para evitar colapso do sistema.

O estudo publicado por pesquisadores do Reino Unido e do Vietnã aponta que a extração de areia no Baixo Mekong está contribuindo de forma expressiva para a redução do pulso de inundação sazonal que alimenta o Tonle Sap, o maior lago de água doce da região. A pesquisa vincula o fenômeno a atividades de mineração de areia em Cambodja e no Vietnã, que, somadas a dragagens e à construção de barragens, alteram o fluxo do rio.

Segundo os cientistas, o aprofundamento progressivo do leito do Mekong impede que o rio eleve seus níveis durante a estação chuvosa, reduzindo entre 40% e 50% o fluxo reverso que abastece Tonle Sap entre 1998 e 2018. A queda no volume de água também aumenta o escoamento para o Delta do Mekong, elevando o risco de inundações e erosão de margens nas áreas mais populosas da região.

A pesquisa, coordenada por Quan Le, da Universidade de Loughborough, utilizou imagens de sonar do leito do Mekong e dados históricos de nível d’água e descarga para estimar que o leito se aprofundou em média 2 a 3 metros nos últimos 20 anos, entre Camboja e Vietnã. A consequência observada é menor aporte de sedimentos ao Tonle Sap durante a estação das chuvas.

Além disso, a redução no fluxo de água durante a seca agrava a intrusão de sal na planície deltaica e diminui o aporte de sedimentos que fertilizam áreas agrícolas no entorno do lago. O estudo aponta ainda que a demanda por areia para construção e indústrias de vidro e silício continua elevada, alimentando o desequilíbrio entre extração e reposição natural de sedimentos.

Panorama e impactos locais

Tonle Sap está incluído na lista de Reservas da Biosfera da UNESCO e é considerado parte essencial do ecossistema do Mekong, cuja biodiversidade é uma das maiores do mundo. A variação sazonal do lago, com inundações que ampliam a rede de habitats, sustenta milhares de pessoas na região. A diminuição da área inundada compromete habitats de mais de 300 espécies de peixe que sustentam milhões de moradores.

O estudo projeta que, se a extração de areia continuar no ritmo atual, até 2038 o pulso de inundação pode encolher até 69% e o tamanho do lago durante a estação chuvosa recuar até 40% frente a 1998. Em termos práticos, isso agrava a vulnerabilidade de comunidades rurais, aumenta o risco de erosão de margens e eleva as pressões sobre o Delta do Mekong.

Governança e caminhos possíveis

Para mitigar os riscos, os pesquisadores defenderam medidas de gestão sustentável de sedimentos ao longo do Mekong, incluindo limitar ou suspender a extração de areia e incentivar a liberação controlada de sedimentos pelas barragens. A ideia é restaurar o equilíbrio sedimentar para sustentar o fluxo reverso que alimenta Tonle Sap.

A equipe também está desenvolvendo um sistema de monitoramento com rastreamento de embarcações por satélite e aprendizado de máquina para identificar hotspots de mineração ao longo do Baixo Mekong. Além disso, parcerias com organizações como a WWF visam apoiar autoridades com mapas que indiquem áreas mais sensíveis aos impactos da extração.

Especialistas externos elogiaram o estudo pela quantificação direta dos impactos da mineração de areia no Tonle Sap. Observam que os resultados ajudam a fundamentar políticas públicas voltadas à governança do Mekong, sobretudo na coordenação entre Cambodja e Vietnã quanto a limites de extração e fiscalização.

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