- Pescadores da Lago Puruzinho, no Amazonas, relatam queda acentuada de espécies como pirarucu, tambaqui e pirapitinga após o início da usina Santo Antônio em 2008, com água ainda e vazante afetando a pesca.
- O morador Raimundo Nonato dos Santos, líder da comunidade, afirma que as mudanças prejudicaram a subsistência e a alimentação diária da região.
- Um estudo da Universidade Federal do Amazonas, divulgado em 2023, relata redução de estoques e aponta 25 novos pontos de pesca, além de diminuição nas capturas de várias espécies.
- O trabalho teve participação de 120 pescadores, usando método de monitoramento simples que registra onde, quando e quanto foi pescado para mapear impactos.
- As empresas das usinas Santo Antônio e Jirau defendem atuação sustentável e investimentos em programas sociais, enquanto pesquisadores destacam quedas de até noventa por cento em alguns locais e alterações na dinâmica de captura.
Lago Puruzinho, Brasil — Em Lago Puruzinho, no extremo norte do estado do Amazonas, pescadores relatam queda acentuada nas capturas de peixe e impacto na subsistência da comunidade. Pesquisadores associam a queda à construção e operação de usinas hidrelétricas na bacia do Madeira.
O pescador Raimundo Nonato dos Santos, 53 anos, líder da comunidade Puruzinho, diz que espécies como pirarucu, tambaqui e pirapitinga teriam “desaparecido” do lago. A situação teria se agravado após o início das obras da usina Santo Antônio em Rondônia, em 2008.
A usina Santo Antônio, inaugurada em operação em 2012, e a vizinha Jirau, em operação desde 2013, são apontadas como responsáveis por reduzir o fluxo natural da Madeira e alterar habitats. Estudos indicam queda de estoques de peixes na região após os empreendimentos.
Investigação científica e participação de pescadores
Pesquisadores da UFAM acompanharam a colaboração com 120 pescadores para mapear impactos. O estudo, publicado em 2023, utiliza dados de pescarias diárias em Humaitá entre 2018 e 2019, cruzados com informações históricas anteriores às hidrelétricas.
O trabalho, liderado pela UFAM, mostra que as hidrelétricas modificaram períodos e locais de captura de várias espécies, alterando a dinâmica de pesca artesanal na região. A metodologia TSBCAMPA foi essencial para a coleta de informações.
Resultados e leitura técnica
Segundo os pesquisadores, houve redução de até 90% em algumas áreas, com 65 espécies afetadas pelas obras. Além da queda de estoques, houve mudanças na distribuição temporal das capturas, levando comunidades a buscar áreas mais distantes.
Os resultados indicam que o principal desafio não é apenas o volume de peixe, mas a mudança espacial e temporal da atividade pesqueira, produzindo impactos desproporcionais em comunidades tradicionais.
Reação e próximos passos
A Axia, responsável pela Santo Antônio, afirma que a operação é sustentável e que há programas sociais e ambientais supervisionados pelo governo, incluindo um programa de ichthyofauna desde 2009. A empresa sustenta que o reservatório é pequeno e reproduz o comportamento hidrológico da Madeira.
A Jirau Energia não respondeu aos contatos para comentar. Pesquisadores defendem a continuidade da parceria com pescadores para aperfeiçoar a avaliação, com foco em espécies selecionadas para comparação pré e pós-dam.
Entre na conversa da comunidade