- Ministério Público do Rio de Janeiro identificou 158 contas de escravizados na Caixa Econômica Federal, abrindo investigação sobre o destino desses recursos.
- Ambrozio, escravo que em 1887 abriu uma conta no banco público, tornou-se livre após a Lei Áurea e retirou os 50.000 reais depositados, encerrando a conta.
- Lidia, lavadeira de Río de Janeiro, viu a maior parte de seus ganhos levados pelos amos; após a abolição, seu dinheiro permaneceu no banco e acumulou juros de 6% semestrais.
- Abolição formalizada em 1888 ampliou o debate sobre reparações, já que as economias herdadas dos escravizados ajudam a discutir responsabilidades históricas e ações do Estado.
- A investigação mira entender o que aconteceu com esses recursos ao longo do tempo, com a Caixa Econômica sendo instada a realizar uma auditoria sistemática e tornar documentos públicos.
O Ministério Público do Rio de Janeiro, com apoio de historiadores, abriu uma investigação para esclarecer o destino de 158 contas de escravizados mantidas na Caixa Econômica Federal. O objetivo é identificar onde terminou o dinheiro e debater reparações históricas.
Ambrozio foi o caso mais conhecido: ele, ainda escravo, abriu uma conta em 1887 e retirou 50 mil reais ao tornar-se livre após a assinatura da Lei Áurea. A conta foi fechada, mas o saldo de Lidia, lavadeira de Rio de Janeiro, permaneceu no banco.
A abolição chegou em 1888 e, segundo pesquisas, Lidia não retirou o dinheiro. O saldo acumulou juros ao longo de décadas e, em 1931, alcançava cerca de 300 mil reais, conforme estudo conduzido pela pesquisadora Keila Grinberg.
Contexto histórico
As investigações partem de documentos do próprio banco público, criado em 1861 para trabalhadores pobres. A iniciativa faz parte de uma demanda histórica por reparações, apresentada pela organização Quilombo, Raza y Clase, ligada às reivindicações de descendentes de africanos.
A apuração envolve registrar como essas economias — e seus juros — contribuíram para o capital de instituições, além de entender o impacto financeiro para as famílias de escravizados. O Ministério Público enfatiza a necessidade de transparência.
A busca aponta que muitas contas foram abertas fora dos grandes centros, o que sugere uma amostra incompleta do que existia no país. Historiadores destacam que o legado financeiro da escravatura permanece invisível para boa parte da população.
O objetivo é que a Caixa Econômica Federal abra um inventário sistemático dos documentos, disponibilize informações ao público e avalie reparações. A instituição tem sido mencionada em outros contextos de reconhecimento de culpa histórica.
Segundo o Ministério Público, a gente precisa entender como esse patrimônio afetou gerações presentes e futuras. O Congresso discute desde 2024 a criação de um fundo de reparações para afrodescendentes.
A historiadora Keila Grinberg ressalta que o aporte de capital resultante de contas de escravizados precisa ser entendido para mapear vínculos com desigualdades atuais. Ela também aponta a importância de verificar direitos de restituição.
A divulgação de casos como Ambrozio e Lidia reforça o marco de que a escravatura foi uma prática integrada a bancos, comerciantes e seguradoras. Nesse contexto, o debate sobre responsabilidades institucionais ganha força no Brasil.
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