- A Comissão Interamericana de Direitos Humanos afirma que haveria envolvimento de atores do Estado em desaparecimentos no México em ritmo “alarmante”, com evidência de cooperação entre crimes organizados e agentes públicos.
- O país registra mais de 130 mil pessoas desaparecidas, principalmente nos últimos 20 anos, desde o início da guerra contra as cartéis, e há relatos de desaparecimentos cometidos por agentes do governo em quase igual medida aos realizados por criminosos em algumas regiões.
- O documento aponta participação direta de agentes estatais em sequestros ou omissão diante dos crimes, além de recrutamento de promotores e autoridades de segurança por grupos criminosos.
- Há controvérsia entre governo e organismos internacionais: o governo nega desaparecimentos forçados, enquanto as Nações Unidas sugerem evidências de prática disseminada ou sistemática; autoridades mexicanas contestam o diagnóstico.
- O relatório destaca o impacto humano, com famílias organizando buscas, mortes de pessoas que buscam desaparecidos desde 2010, e cerca de 70 mil corpos não identificados sob custódia estatal, evidenciando impunidade persistente.
O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (IACHR) aponta que atores estatais estão envolvidos em desaparecimentos no México em ritmo alarmante. A investigação, à qual o Guardian teve acesso exclusivo, descreve a crise de desaparecimentos no país, com mais de 130 mil pessoas desaparecidas, principalmente nas últimas duas décadas.
Embora facções criminosas representem a maioria dos casos, o documento ressalta que muitos desaparecimentos cometidos por organizações criminosas ocorrem em conluio com agentes do Estado. Em algumas regiões, houve momentos em que os casos de Estado e de crime organizado quase se igualaram em número.
Contexto e respostas oficiais
O relatório também indica que desaparecimentos diretamente realizados por agentes estatais ainda não foram erradicados, com casos em que o Estado esteve envolvido de modo indireto, ao não agir diante de crimes. A IACHR afirma ainda que o crime organizado recruta agentes de segurança, forças de ordem e até autoridades políticas.
O governo de Claudia Sheinbaum rebateu as acusações. Em resposta a sinais de possível desaparecimento forçado, a Presidência afirmou, em diversas ocasiões, que não há esse tipo de prática no México. A ONU, por sua vez, sinalizou indícios de desaparecimentos forçados como crime contra a humanidade, o que também foi rejeitado pelo governo mexicano.
Organizações de direitos humanos destacam que a reação oficial tem subestimado a dimensão do problema. Em março, autoridades apresentaram um relatório indicando que um terço dos casos carecia de dados suficientes, e que quase 40 mil pessoas continuam sem identificação.
Impactos humanos e judiciários
A IACHR sustenta que, diante da magnitude e da fraca resposta estatal, famílias passaram a se organizar para buscar seus entes perdidos, enfrentando obstáculos institucionais e riscos à vida. Registra ainda que, desde 2010, pelo menos 27 pessoas que buscavam familiares foram mortas, na maioria mães.
O relatório reconhece avanços recentes, como a reativação da Comissão Nacional de Busca e o reconhecimento da crise como humanitária. No entanto, a forense no país permanece crítica, com cerca de 70 mil corpos em custódia estatal ainda não identificados.
Segundo a IACHR, a impunidade é um entrave central. Desde 2014, apenas 357 pessoas foram acusadas pelo crime de desaparecimento ou desaparecimento forçado, e das quais apenas 9 foram condenadas.
Dados adicionais e próximos passos
O documento enfatiza a necessidade de ações firmes para interromper conluios entre crime organizado e autoridades, bem como de melhorias significativas na identificação de vítimas e na responsabilização de agentes públicos. As organizações de direitos humanos continuam pedindo transparência e proteção às famílias que buscam seus entes.
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