- Mulheres são as principais responsáveis pela coleta de iscas vivas no Pantanal, em Corumbá e áreas vizinhas, sustentando a pesca de luxo na região.
- Quase 40% dos pescadores profissionais nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são mulheres (5.026 de 12.319).
- O trabalho é manual, perigoso e remoto: as coletoras enfrentam animais, água suja e jornadas de até 12 horas, com renda baixa.
- Benefício salarial da “seguro-defeso” é irregular: transferências passaram a depender do Ministério do Trabalho e Emprego, com pagamentos ainda pendentes em muitos casos.
- A cadeia envolve PPE (roupas de proteção) financiadas com multas trabalhistas; a situação financeira é agravada pela sazonalidade das atividades e pela competição de preço entre comunidades e mercados urbanos.
Roseli Oliveira acorda às 3 da manhã na Ilha Baguari, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, para iniciar a rotina de recolha de iscas vivas. Com o farol desligado para não espantar os peixes, ela entra na água até a cintura, cercada por jacarés, anacondas e arraias. São 12 horas de trabalho pela frente, e o bolso depende do que for capturado.
A vida das catadoras de iscas não é exceção no Pantanal. Mulheres de comunidades ribeirinhas coletam correntes de isca com redes finas para abastecer a pesca esportiva, o turismo náutico e a economia local. O trabalho é manual, invisível e arriscado, mas crucial para a continuidade de várias atividades econômicas da região.
A situação é histórica: em 2002, o pesquisador Álvaro Banducci verificou a marginalização socioeconômica de pessoas envolvidas nesse setor. Hoje, o cenário mudou em algumas comunidades, com mulheres assumindo a liderança na coleta de iscas e em posições sociais, enquanto homens passam a atuar como guias ou gestores de lodges.
Dados oficiais de 2023 mostram que, entre 12.319 pescadores profissionais nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, 5.026 são mulheres, o que representa cerca de 40% do total. A participação feminina revela a importância econômica desse grupo para o Pantanal e para o turismo de pesca.
Entre as catadoras está Zezé, de 61 anos, que atua na comunidade Porto da Manga, próxima a Corumbá. Ela trabalha há 34 anos na coleta de iscas e relata exposição a doenças ginecológicas decorrentes da água contaminada. A falta de proteção, aliada à informalidade, aponta para vulnerabilidade do grupo.
Em 2011, uma parceria envolvendo a Ecoa e uma empresa paranaense levou ao desenvolvimento de macacões impermeáveis e botas resistentes para as catadoras. O recurso vem de multas trabalhistas arrecadadas pela Justiça do Trabalho, mas a vida útil é de cerca de um ano, e nem todas as coletoras recebem novas peças com regularidade. A proteção, todavia, reduziu riscos de ferimentos e picadas de animais.
O trabalho é realizado em grupo, com cada barco acomodando de duas a quatro pessoas. Mesmo em períodos de abundância, o grupo enfrenta privações financeiras: a renda mensal de uma mãe trabalhadora e suas quatro filhas fica entre 1.500 e 2.000 reais, abaixo do salário mínimo. A ausência de contratos formais facilita negociações informais com lodges e vendedores locais.
A dinâmica econômica do Pantanal mostra que a atividade de pesca esportiva cresce rapidamente. Relatórios recentes indicam expansão de 30% a 40% no estado de Mato Grosso nos últimos dois anos, com centenas de lodges e turistas pagando valores elevados pela experiência. A cadeia de iscas, no entanto, permanece suscetível a variações sazonais e à distância entre comunidades e mercados urbanos.
Existe um período de defeso, de novembro a fevereiro, em que a pesca é proibida para permitir a reprodução dos peixes. O pagamento do seguro-defeso, benefício destinado aos pescadores durante esse período, sofre atrasos sob a gestão pública, com mudanças administrativas que transferiram a responsabilidade entre INSS e Ministério do Trabalho e Emprego. Em Mato Grosso, há reclamações de atraso e dificuldades de pagamento que afetam famílias inteiras.
Relatos apresentados por líderes locais destacam que, mesmo quando o benefício é pago, o defeso é o momento de maior endividamento para as famílias, que precisam deslocar-se a Corumbá para sacar o dinheiro, com custos de combustível e tempo. Enquanto isso, a proibição impede a diversificação de renda, restringindo atividades legais fora da pesca.
Em Porto Esperança, no Corumbá, comunidades reconhecem o papel central das mulheres na coleta de iscas para a economia local, que hoje depende fortemente do turismo de pesca. Mesmo sem contratos formais, as catadoras mantêm a média de produção para sustentar a casa, com redes de apoio comunitário e estratégias de cooperação entre vizinhas para ajustar a oferta conforme a demanda do mercado.
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