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Sofrimento entre conservacionistas: por que estão desmoronando

Conservacionistas enfrentam crise de saúde mental diante da degradação ambiental, salários baixos e financiamento instável

Turnbull NWR - Waterfowl Surveys.
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  • Em dezembro de dois mil e vinte e quatro, Rachel Graham, diretora executiva da Marine Alliance (MarAlliance) em Belize, disse em LinkedIn que conhecia cinco cientistas de vida selvagem que cometeram suicídio naquele ano, descrevendo a situação como crise no meio conservacionista.
  • Um estudo de duas mil profissionais de conservação, publicado em Conservation Biology, revelou que quarenta e sete por cento enfrentam sofrimento moderado a grave; mulheres e profissionais em início de carreira são mais vulneráveis.
  • Fatores contribuem: baixos salários, insegurança no emprego, longas jornadas, dependência de financiamentos e esgotamento, além de impactos diretos da degradação ambiental e de mudanças climáticas.
  • Problemas de gênero, machismo e stigma da saúde mental, especialmente em países tropicais, agravam o sofrimento entre executores da conservação, inclusive para mães e pais.
  • Recomendações para melhorar: discutir saúde mental no ambiente de trabalho, modelos de liderança que valorizem bem-estar, financiamento estável de longo prazo, e práticas de autocuidado e pertencimento para evitar esgotamento.

O debate sobre a saúde mental na conservação ganhou visibilidade internacional após um post de dezembro de 2024, em que a diretora executiva da MarAlliance, Rachel Graham, mencionou ter conhecimento de cinco cientistas de vida selvagem que se suicidaram no ano. A mensagem, que descreveu a situação como uma crise, viralizou, gerando milhares de visualizações. Pesquisadores e líderes da área correlacionam esse custo humano com o manejo de uma crise ambiental em curso.

Segundo Graham, a motivação para ingressar na conservação costuma ser a empatia, mas esse ideal pode se tornar uma vulnerabilidade diante do declínio da biodiversidade, mudanças climáticas e distúrbios no ecossistema. Fatores como salários baixos, instabilidade de emprego e dependência de financiamentos instáveis ajudam a agravar o desgaste mental.

Estudos de pesquisa fortalecem a percepção de que o tema é real, não apenas anecdótico. Em 2023, uma pesquisa com mais de 2 mil profissionais da área mostrou que cerca de 28% viviam sofrimento moderado a severo. Mulheres e profissionais em fases iniciais da carreira estavam entre os grupos mais vulneráveis.

A pesquisa, conduzida por Thomas Pienkowski, ressalta que não compara a conservação ao restante da população, mas aponta fatores específicos do setor que elevam o estresse. Entre eles, a pressão por resultados, a precariedade financeira de projetos e o peso de salvar espécies.

Dr. Vik Mohan, médico com duas décadas no campo, descreve o que chama de epidemia de sofrimento na comunidade de conservação. A percepção de que o mundo natural está deteriorando aumenta o esgotamento emocional entre quem atua no berço de decisões políticas, científicas e comunitárias.

Dados da WWF apontam queda de 73% nas populações de vida silvestre entre 1970 e 2020, além de aproximadamente 90% das frotas pesqueiras globais estarem sobreexploradas ou no limite. Tais números ajudam a explicar a atmosfera de urgência que permeia o trabalho diário.

Conservacionistas que trabalham com animais sensíveis relatam um duplo peso: a própria dor pela perda de espécies que estudam pode se somar ao sofrimento humano decorrente da experiência de ver aqueles mesmos indivíduos sofrerem por ações humanas. O termo eco-luto ganhou espaço para descrever esse sentimento de desânimo diante da devastação ambiental.

Jessie Panazzolo, fundadora da Lonely Conservationists, descreve um senso de desencanto entre jovens profissionais que chegam a questionar se vale a pena seguir na área. A narrativa de pessoas que desistem ou mudam de curso ganhou relevância entre estudantes e recém-formados.

O setor é apontado como particularmente vulnerável a padrões de atuação de alto desgaste: baixos salários, etapas de voluntariado não remunerado, insegurança ocupacional e expectativas de alta produtividade. Organizações enfrentam ainda dificuldades para manter equipes estáveis diante de limites orçamentários.

Ao discutir saídas, Panazzolo e outros sugerem abrir espaços para o tema da saúde mental dentro das organizações, com práticas como check-ins regulares de bem-estar. Lideranças precisam modelar cuidado com a própria saúde e com o time, evitando a ideia de que dedicação extremo é a única via.

Especialistas destacam a necessidade de financiamento mais estável e flexível, que permita salários dignos, inovação e capacidade de resposta a crises. Investidores e doadores também devem apoiar estruturas que promovam pertencimento, autonomia e competência entre os trabalhadores.

Outra dimensão apontada envolve repensar a forma de fazer conservação, com propostas de descentralização de abordagens e maior integração com comunidades locais. O objetivo é reduzir o peso do protagonismo individual e fortalecer redes de apoio mútuo.

No âmbito prático, especialistas ressaltam a importância de delimitar limites pessoais, manter vida social e buscar suporte profissional quando necessário. A ideia é transformar cuidado com a equipe em parte essencial da prática de conservação, não um benefício acessório.

Em resumo, a produção de conhecimento, a proteção de espécies e a agenda de políticas precisam andar lado a lado com condições dignas de trabalho. A esperança de recuperação ambiental permanece, mas depende de estruturas que preservem a saúde dos profissionais que atuam na linha de frente.

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