- Em 2025, várias espécies foram oficialmente consideradas extintas no IUCN Red List, após anos de incerteza e pesquisas dispersas.
- Ao mesmo tempo, centenas de espécies foram descritas pela primeira vez na literatura científica, mostrando que o planeta ainda guarda muito que não está catalogado.
- O ano também registrou homenagens a guardiões da natureza que faleceram, destacando décadas de trabalho em defesa de ecossistemas, muitas vezes sem reconhecimento público.
- Medidas e avanços significativos envolveram acordos e ações de proteção, como grandes áreas marinhas, planos de manejo oceânico e a suspensão de novos projetos de óleo e mineração em relevantes biomas, além de avanços na demarcação de terras indígenas.
- Os progressos dependem de políticas públicas, financiamento e fiscalização; mesmo com avanços, milhões de hectares de habitat foram afetados ou destruídos em 2025.
Na virada de 2025, um pequeno grupo de espécies foi oficialmente listado como extinta na IUCN Red List. O registro é técnico para a ciência, mas soa como obituário adiado para o público. Simultaneamente, centenas de organismos foram descritos pela primeira vez na literatura científica, após trabalho de campo ou consulta a acervos de museus.
Entre esses extremos, a atuação humana busca frear perdas e decisões institucionais moldam avanços ou fracassos. No meu recorte, 2025 foi também ano de memoriais, com mais de 80 obituários de defensores da natureza. A leitura é que muitos permaneceram na linha de frente mesmo com custos elevados.
A Red List não lê com emoção; registra. A ausência de sentimento acentua a gravidade: as entradas são sucintas porque o dano já ocorreu. Entre as perdas, destacam-se casos de longa deterioração e negligência gradual, não de um único evento.
As perdas que se tornaram oficiais
Diversos novos registros de extinção seguiram um padrão: incerteza prolongada, buscas dispersas e consenso técnico de que agir tarde demais não é prudente. Abaixo, exemplos representativos:
- Couraça-de-lápis-fiel: ave migratória que ligava Sibéria, Europa e África; última foto foi em Marrocos, em 1995. Depois, a preocupação houve, ação deixou de ocorrer.
- Musaraque-imperial de Christmas Island: mamífero pequeno que sumiu em ilha remota da Austrália, possivelmente pela introduced rats e doenças. Registros diminuíram na década de 1980.
- Três bandicoots australianos: marl, listrado do sudeste e bandicoot barrado de Nullarbor desapareceram entre o fim do século XIX e o início do XX, vítima de perda de hábitat e gatos ferais.
- Duas plantas: árvore de Maurício e arbusto havaiano sobreviveram apenas como herbários, sinais de desaparecimento observados tardiamente.
- Um caracol-cone: comum em parte da costa de Cabo Verde, sumiu com a expansão urbana.
Esses casos mostram que a extinção decorre da soma de abandono e atraso na resposta, mais do que de um único choque.

As descobertas que chegaram tarde
A cada ano, novas espécies entram para o universo conhecido. Em 2025, muitos nomes foram descritos após anos de pesquisa, principalmente quando já se tratava de espécies raras. A ideia é que grande parte da biodiversidade permanece não catalogada.
Estimativas indicam que apenas uma fração das espécies do planeta foi documentada. O desconhecido concentra-se no que é pequeno, noturno, profundo e pouco notado. Em áreas sob pressão, esse desconhecimento aumenta o risco de extinção antes de ser nomeado.
Entre os exemplos de 2025:
- Marmosa chachapoya (Peru), marsupial-do-cosse alto andino.
- Nothobranchius sylvaticus (Quênia), killifish limitado a brejos sazonais em floresta de 7 milhões de anos.
- Tessmannia princeps (Tanzânia), árvores imponentes na serra Udzungwa, com apenas cerca de 100 indivíduos.
- Iolaus francisi (Angola), borboleta azul restrita a áreas florestais ameaçadas.
- Thismia selangorensis (Malásia), planta subterrânea conhecida por trilha de piquenique.
- Myotis himalaicus (Himalaia), morcego de corredor montanhoso remoto.
- Celestus jamesbondi (Jamaica), réptil caribenho recém reconhecido.
- Leptophis mystacinus (Brasil), serpente-papagaio verde, endêmica do Cerrado.
- Mobula yarae (Atlântico), espécie de manta recém-confirmada.
- Diversos descobrimentos oceânicos: mais de 850 novas espécies marinhas descritas.
Há também uma leitura implícita: muitas espécies descritas pela ciência são já conhecidas por povos indígenas, que as nomeiam há gerações. O reconhecimento científico pode ampliar proteção, mas nem sempre chega de forma rápida ou justa.

Os guardiões que perdemos
As pessoas mencionadas atuaram como conservação, ciência, ativismo ou defesa. Suas etiquetas estão corretas, mas incompletas: o que as une é uma posição entre a vida e as forças que a ameaçam. Elas trabalharam por décadas, muitas vezes com pouco reconhecimento.
Há uma distância entre memória pública e o trabalho de conservação, que exige persistência longa, negociações de fronteiras, treinamento de brigadas, coleta de dados e manutenção de acordos. Os obituários registram escolhas que mantêm o foco em ecosistemas ameaçados.
Os textos sobre essas vidas não pretendem santificar ninguém nem induzir desespero. Em conjunto, oferecem evidência prática de que a proteção é uma prática diária, com pessoas que equilibram compromissos familiares, dúvidas e limites.

Os avanços que importam
Listas de vitórias de fim de ano podem soar como consolo ou relações públicas. Em conservação, vale tratá-las como relatos de campo, pois revelam o que funcionou, onde e por quê.
Alguns avanços de 2025 têm em comum a abordagem de proteção como questão de governança, não apenas de visibilidade. Na Austrália, a criação de um Parque Nacional de Koalas envolve moratória de logging e apoio a transição de trabalhadores, além de infraestrutura turística e créditos de carbono. O objetivo é conectar habitats para aumentar a resiliência.
Na América do Sul, Suriname comprometeu-se a conservar 90% de sua floresta tropical por meio de novas áreas protegidas e demarcação de territórios tradicionais. Em Colômbia, foi criado um território maior que 1 milhão de hectares para proteger povos não contatados Yuri-Passé, proibindo desenvolvimento econômico e contato forçado.
Colômbia também anunciou a suspensão de novos projetos de óleo e mineração na Amazônia, como medida para evitar desmatamento e contaminação de rios. O compromisso depende de fiscalização e continuidade política, mas sinaliza uma mudança de rumo regional.
Em nível global, nove governos aceitaram reconhecer 160 milhões de hectares de terras indígenas até 2030, com apoio financeiro para a titularidade. A proteção das comunidades é vista como parte de soluções de conservação.
No oceano, avanços legais ocorreram com dois acordos multilaterais ganhando entrada em vigor após ratificações: o Tratado das Mar Profundas, em vigor a partir de janeiro de 2026, e acordo da OMC sobre subsídios pesqueiros prejudiciais. Medidas não são panaceias, mas marcam passos práticos.
Casos de proteção marinha também cresceram: EUA, Japão e outras nações criaram áreas protegidas, com planos de gerir 30% das zonas costeiras para preservar ecossistemas. A área de proteção total de alguns territórios foi ampliada, com zonas altamente protegidas.
Do ponto de vista biológico, houve progressos reais. A tartaruga verde passou de risco para preocupação menor, após décadas de proteção e manejo de praias de nidificação. A arara-azul-de-cauda-vermelha de Brasil teve melhora com ninhos artificiais e incentivos locais. Em Floreana, Galápagos, uma linha de tipo de ave reapareceu após controle de espécies invasoras.
Esses avanços não anulam as perdas. Demonstram, porém, que resultados dependem de escolhas políticas, financiamento, fiscalização e continuidade de ações. A conservação segue como uma prática contínua, sem promessas de vitória rápida.
O que o relatório não mostra
Anos assim mantêm um saldo controverso: espécies extintas após o reconhecimento tardio, descobertas apenas perto do ponto crítico, defensores perdidos sem substituição imediata, decisões que deveriam manter ecossistemas íntegros e, ainda, milhões de hectares de habitat degradados. A leitura não sugere humor ou desespero, mas aponta a natureza aberta da conservação.
O registro da Red List funciona como alerta: atraso custa caro; as listas de descobertas lembram que não basta nomear o que não se sabe; e as obituários destacam que proteção depende de pessoas, não de recursos renováveis. Além disso, milhões de hectares de floresta, recife e fundo do mar continuaram a ser degradados em 2025.
A conclusão correta é que a conservação é uma disciplina com trabalho inacabado. A escolha de políticas, o financiamento e a aplicação prática moldam o que vem pela frente. O que foi perdido em 2025 envolve tempo; o que se encontrou envolve vida que pode ajudar a moldar o futuro.
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