- Movimento Parents in Science, fundado em 2016 por Fernanda Staniscuaski e colegas, trabalha pela parentalidade na ciência e pela coleta de dados sobre pesquisadoras com filhos, área com pouco registro oficial no Brasil.
- Estudo com cerca de mil docentes aponta que mães saem pelo não cumprimento de produção mínima (66,1%) com mais facilidade que pais históricos (37,5%), e enfrentam mais dificuldades para retornar à carreira.
- Atlas da Permanência Materna identifica políticas predominantes de assistência financeira (média de cerca de R$ 370 por mês) e aponta queda de suporte na pós-graduação; poucas cuidotecas disponíveis.
- Iniciativas nacionais incluem o programa Aurora da Capes, com até 300 bolsas para gestantes ou mães com pós-doutorando, para manter orientações e pesquisas durante a licença.
- Legislação recente amplia prazos de conclusão de cursos em casos de gestação de risco e proíbe discriminação por maternidade em processos de seleção, além de ampliar o tempo de avaliação de produtividade durante licença.
O Brasil ainda forma mais doutoras do que doutores, mas as mulheres continuam sendo minoria entre docentes de graduação e pós-graduação. O estudo aponta que elas recebem apenas um terço das bolsas de produtividade na carreira acadêmica. O “efeito tesoura” se acentua conforme a progressão na carreira e impacta mais as mães.
Fernanda Staniscuaski, professora da UFRGS, destaca que, ao se tornar mãe, a desaceleração profissional pode se tornar permanente. Ela criou, em 2016, o movimento Parents in Science, com o objetivo de debater a parentalidade entre pesquisadoras e pesquisadores, hoje com mais de 90 associados.
Condições de retorno e dados de credenciamento
O grupo investiga a lacuna de dados sobre pesquisadores com filhos no Brasil, o que dificulta medir impactos na carreira. Entre docentes avaliados, 66,1% das mães saíram por descredenciamento, frente a 37,5% dos pais que deixaram por perda de produtividade.
Entre mães e pais que saíram por demanda própria, a saída foi mais comum entre os pais (24,6%), mas o descredenciamento foi mais presente entre as mães (66,1%). A dificuldade de reinserção é maior entre mães que perderam produtividade, com 38% não retornando, ante 25% dos pais.
Experiência e políticas públicas
A assistente social Cristiane Derne, mãe e estudante na UFRJ, relata obstáculos no caminho acadêmico, como deslocamentos, horários e faltas por saúde dos filhos. A UFRJ oferece auxílio educacional, mas nem todo custo fica coberto; coletivos de mães ajudam com informações e suporte emocional.
O Atlas da Permanência Materna, do Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade, aponta que 63 das 69 federais oferecem assistência financeira, com média de cerca de R$ 370 mensais, mas poucas instituições estendem benefícios à pós-graduação. Cuidotecas são raras, com apenas oito universidades disponibilizando espaços para crianças.
Diversidade e mudanças na prática
Liziê Calmon, doutoranda e professora, defende que a maternidade agrega uma visão relevante à ciência. Ela integra o coletivo Filhas de Sabah, que apoiou a aprovação do Marco Legal Mães na Ciência no Rio de Janeiro, ampliando o peso da experiência de cuidado em processos seletivos.
Iniciativas de editais e incentivos
O Rio de Janeiro levou adiante ações com editais para mães. Em 2024, a Faperj, em parceria com Parents in Science e o Instituto Serrapilheira, lançou programa que beneficiou 134 mães. Em 2025, nova edição está prevista, com foco em manter a produção acadêmica durante a maternidade.
A Capes lançou o programa Aurora, com até 300 bolsas para mães professoras de pós-graduação, permitindo a colocação de um pós-doutorando para trabalhar durante a licença. A iniciativa visa manter a continuidade da pesquisa e orientar estudantes durante esse período.
Legislação e avanços institucionais
Em 2024, foi sancionada lei que prorroga em seis meses o prazo de conclusão de graduações e pós-graduações em casos de gestação de risco, parto, adoção ou guarda. Em 2025, entrou em vigor norma que proíbe discriminação de mães em processos de seleção e renovação de bolsas, além de ampliar o período de avaliação de produtividade em casos de licença-maternidade.
Perspectivas nacionais
Especialistas defendem que a inclusão de mães na ciência é essencial para melhorar a qualidade da produção acadêmica. A Capes enfatiza a importância de políticas compensatórias para reduzir o viés de gênero e manter as pesquisadoras ativas, inclusive em função de demandas familiares.
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