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Réquiem para uma utopia: avaliação sobre o fim de um projeto ideal

Berlim Oriental, antes da queda do Muro, expõe relação desigual que derruba a utopia, com trilha de Mozart e conflitos entre passado e presente

Kairós. Jenny Erpenbeck. Companhia das Letras (392 págs., 129,90 reais)
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  • Vencedor do International Booker Prize de 2024, o romance Kairós, de Jenny Erpenbeck, narra uma paixão às vésperas da queda do Muro de Berlim.
  • Katharina, 19 anos, e Hans, 53, escritor casado, se conhecem num passeio de ônibus em Berlim Oriental; a relação nasce no encontro marcado pelo momento.
  • A narrativa alterna entre terceira pessoa e trechos em primeira pessoa das fitas gravadas por Hans, que Katharina ouve; a música escolhida para dormir com ela é o Réquiem de Mozart.
  • A história aponta para a morte de Hans e o fim do relacionamento, como metáfora da derrocada da RDA e da própria Alemanha dividida.
  • Erpenbeck destaca a educação e a cultura na RDA como pistas de funcionamento do regime, enquanto a relação entre os personagens revela tensões de poder e violência. O livro tem 392 páginas e custa 129,90 reais.

Kairós, romance de Jenny Erpenbeck, venceu o International Booker Prize 2024. A obra narra uma paixão vertiginosa nos dias que antecedem a queda do Muro de Berlim, em Berlim Oriental. A história se constrói a partir de um encontro marcado pela ocasião e pelo destino.

A narradora acompanha Katharina, 19 anos, e Hans, 53, escritor e marido de outra mulher. A diferença de idade e os laços de Hans com a família configuram um relacionamento complexo, movido pela busca de sentido em meio a um regime ainda vigente.

A trama alterna entre terceira pessoa e trechos em primeira pessoa, vindos de fitas gravadas por Hans. Katharina é obrigada a ouvir essas gravações, que revelam tensões, manipulações e uma dinâmica de poder no casal.

A trilha sonora escolhida para a relação é o Réquiem, de Mozart, associada a cenas de intimidade e ao mergulho emocional que se desenha. As passagens apontam para uma memória cultural que contrasta com a violência que se instala.

A narrativa revela o pano de fundo histórico: Berlim Oriental, política de Estado e o colapso iminente da RDA. A obra usa a relação como símbolo da transformação urbana, social e ideológica que se aproxima.

Entre os temas, emerge a oposição entre adolescência e maturidade, bem como o choque entre culturas vividas de forma diferente pelos protagonistas. Katharina representa um vínculo civilizacional mais aberto; Hans, uma figura de controle.

Acompanhando a evolução do casal, a autora sugere que o projeto de uma Alemanha socialista enfrentou falhas e contradições. A história também aponta as ambiguidades de um regime que molda identidades.

A narrativa culmina com a morte de Hans e o fim do relacionamento, associando-se ao fim simbólico da utopia. A obra propõe uma leitura sobre memória, identidade e as consequências de escolhas pessoais.

Estrutura e linguagem

A construção apresenta uma prosa sofisticada em terceira pessoa, com inserções em primeira pessoa. Em tradução de Sergio Tellaroli, as sutilezas de tempo verbal fortalecem o ritmo de leitura. A edição da Companhia das Letras tem 392 páginas.

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