- A crise com o Irã elevou os preços do petróleo e gás, levando dezenas de países a adotar medidas emergenciais de energia, como cortes de consumo, subsídios e busca por fornecimento alternativo.
- Países como Filipinas, Bangladesh, Kenia, Paquistão e outros vivenciando interrupções no abastecimento, com impactos como emergências nacionais, queda de produção e protestos públicos.
- O efeito político é profundo: governantes passaram a ver energia barata e segura como garantia de estabilidade, acelerando investimentos em energia limpa, armazenamento e eficiência, para reduzir dependência de combustíveis importados.
- Investimentos em energia limpa já seguem em alta: em 2025 chegaram a 2,2 trilhões de dólares, com custos de baterias caindo e projetos de solar, eólica e armazenamento ganhando espaço, inclusive em economias em desenvolvimento.
- Tendências-chave para o cenário global: acelerar a expansão de energia solar; erosionar o peso estratégico dos exportadores de combustíveis; e tornar a diplomacia climática mais ligada à redução do uso de fósseis, com apoio financeiro ainda necessário para transição justa.
O choque de preços de petróleo e gás, provocado pelo início do conflito entre EUA e Irã, está redesenhando a arquitetura energética do Sul Global. O aumento súbito de custos tornou a dependência de combustíveis importados um risco político visível para líderes no poder.
Em poucas semanas, mais de 60 governos adotaram quase 200 medidas de emergência no setor energético, desde cortes de consumo até subsídios e busca por fornecimento alternativo. Manila declarou emergência energética nacional, com paralisações trabalhistas impactando o comércio.
Em Bangladesh, a escassez de combustível reduziu a produção de fábricas de vestuário, que respondem por grande parte das exportações do país. Protestos e dificuldades com energia marcaram outros países da região, como Quênia e Paquistão, elevando tensões sociais e políticas.
Documentos internos do Banco Mundial, revisados pela Reuters, indicam que 27 países buscaram acesso rápido a financiamentos de crise logo após o início do conflito. Em paralelo, a Agência Internacional de Energia aponta que muitos governos passaram a reduzir a dependência externa de petróleo e gás.
Por trás das medidas emergenciais, consolida-se uma mudança estrutural: a energia limpa deixa de ser apenas um objetivo ambiental ou econômico de longo prazo e passa a atuar como proteção contra agitações populares, reservas esgotadas e instabilidade política. Painéis solares, baterias e redes eficientes surgem como instrumentos de estabilidade.
Economias já vinham migrando para soluções verdes. O investimento global em energia limpa atingiu 2,2 trilhões de dólares em 2025, o dobro do aplicado a combustíveis fósseis. Em 2024, 91% de novos projetos renováveis geraram energia mais barata que as opções fósseis mais baratas.
Antes da crise no Golfo, a transição também avançava em mercados emergentes. Projetos de energia renovável tinham redução de custos e a China exportava mais módulos solares para países em desenvolvimento. Em alguns lugares, veículos elétricos tornaram-se economicamente competitivos com os modelos movidos a combustível fóssil.
A crise acelerou decisões já em curso. Governos passaram a promover licitações e investimentos em capacidade renovável como parte de políticas de segurança energética, não apenas de clima. Na prática, a projeção é de aceleração de projetos solares e de transição para outras tecnologias limpas.
Observa-se uso de incentivos para reduzir o custo da energia limpa, incluindo estímulos para veículos elétricos e maior eficiência de transporte. Em várias nações, a eletrificação aparece como alívio imediato frente a picos de preço do petróleo, além de reduzir vulnerabilidade externa.
A pandemia de medidas não é uniforme. Alguns governos mantêm o carvão como opção de curto prazo para compensar o LNG mais caro, mas especialistas avaliam que, mesmo em cenários pessimistas, a geração a carvão deve subir apenas marginalmente em 2026.
Três consequências para a geopolítica global devem se consolidar. Primeiro, a implantação de energia solar tende a acelerar, com custos já inferiores aos de novas usinas fósseis. Segundo, o peso estratégico dos exportadores de combustíveis pode diminuir com o tempo. Terceiro, a diplomacia climática ganha foco direto na redução do uso de fósseis, com apoio a transição rápida e segura.
Ainda há necessidade de financiamento climático para resultados justos e rápidos. Reguladores e financiadores continuam a enfrentar o desafio de ampliar redes elétricas, armazenamento e acesso a capital, sem atrasos, para equilibrar desenvolvimento e estabilização política.
O conflito iraniano deixa um aprendizado claro: combustíveis fósseis passam a ser vistos, por muitos governos importadores, como risco à segurança nacional, não apenas como custo econômico ou impacto ambiental.
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