- Van Gogh assinava apenas cerca de 15% de suas pinturas sobreviventes — 133 de 840 telas, um percentual incomum para o século XIX.
- Ele assinou apenas com o primeiro nome por motivos familiares (relação tensa com a família) e por questões de pronúnia em outros países, preferindo “Vincent” em catálogos e exibições.
- A assinatura costumava ser vermelha, escolhida para criar contraste de cores com o restante da obra; quando inclinada, ficava em torno de 45 graus para gerar sensação de desequilíbrio.
- Em muitos quadros, o “V” em formato de ferradura aparece na assinatura, especialmente na fase em Arles; às vezes a assinatura era colocada em objetos da composição (como o pote de girassóis).
- Existem dois motivos principais para assinar: quando ficava satisfeito com a obra ou quando era presente para alguém; ele começou a assinar em 1884, com mais atividade em Paris e menos depois em Saint-Rémy e Auvers, refletindo experiências de venda.
Vincent van Gogh assinou poucas de suas telas, e quase sempre apenas com o seu prenome. A explicação de por que ele fez isso e em que situações ocorre está detalhada em um estudo da historiadora de arte holandesa Julia Engelmayer, disponível no site do Van Gogh Museum.
A pesquisa mostra que Van Gogh produziu aproximadamente 1.000 pinturas, das quais 840 sobreviveram. Destas, 133 trazem assinatura ou, em dois casos, apenas o título inscrito. Isso representa cerca de 15% de toda a sua produção, um percentual baixo para um artista do século XIX.
Dois motivos explicam o uso do primeiro nome. Primeiro, as relações com a família, especialmente com o pai, eram tensas, embora o vínculo com o irmão Theo fosse próximo. Em carta de 1883, ele descreve que é diferente do restante da família e que não é um “Van Gogh”.
Segundo motivo: a dificuldade de pronúncia do sobrenome pelos falantes de outros idiomas. Em 1888, ele afirmou que desejava que o catálogo de uma exposição na Bélgica apresentasse apenas seu nome de batismo, para evitar problemas de pronúncia, mantendo a forma como assinava as telas: Vincent, e não Vangogh.
Assinaturas em cor e ângulo
Cerca de 75 das 133 assinaturas são vermelhas, cor marcante para uma assinatura que, em geral, não era destacada. Engelmayer aponta que o uso de cores fortes, como o vermelho, contrasta com cenários onde ele buscava equilíbrio cromático por contraste de cores adjacentes.
Mais da metade das assinaturas não fica na horizontal: muitas aparecem inclinadas em torno de 45 graus, o que, segundo a pesquisadora, pode provocar desordem visual na obra e reforçar a sensação de inquietação da composição.
Outro traço distintivo é a presença de um “V” em forma de ferradura em 31 obras, especialmente durante o período em Arles. Em alguns quadros, o selo aparece em posições incomuns, como na assinatura sobre o pote das Sunflowers ou em uma caixa no fundo de A Cadeira.
Fontes e escolhas estéticas
A assinatura pode aparecer no canto da tela ou, em rarezas, sobre um elemento da própria pintura, como o pote de girassóis. Em alguns casos, a marca foi usada para reivindicar propriedade sobre um motivo específico, reforçando a autoria de detalhes como as Sunflowers.
Por que assinar? Van Gogh o fez principalmente quando estava satisfeito com a obra ou quando a pretendia oferecer de presente. O início das assinaturas data de 1884, em Nuenen, com 17 pinturas, mas ele assinou com mais frequência em Paris, entre 1886 e 1888, buscando oportunidades de exibir e vender o trabalho.
Mudanças ao longo da carreira
Após a mudança para Arles, o ritmo de assinaturas permaneceu relativamente alto (cerca de 50 obras), mas caiu nos últimos meses, sobretudo após o episódio da mutilação da orelha. Durante a temporada em Saint-Rémy-de-Provence, quando esteve internado, as assinaturas ficaram raras. No fim de vida, em Auvers-sur-Oise, assinalou apenas uma tela.
Hoje, a assinatura ainda é um indicativo relevante em leilões, com as casas destacando se a obra está assinada, o que pode influenciar o valor de mercado. O caso de The Red Vineyard, vendido já sem assinatura, é lembrado como exemplo extremo.
Observação editorial
O estudo de Engelmayer compõe uma leitura sobre as escolhas de Van Gogh quanto à assinatura, conectando-as a questões de pronúncia, circulação internacional da sua obra e estratégias de circulação de seu trabalho. As informações ajudam a entender não apenas a prática, mas o contexto de cada assinatura.
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