- A polarização política no Congresso atingiu praticamente todas as pautas em 2025, segundo a Pesquisa Legislativa Brasileira, com maior poder orçamentário e menor responsabilização individual pelos gastos.
- A esquerda encolheu e a distância para a direita aumentou; o legislador mediano está mais à direita e o Congresso foi para a direita, enquanto o presidente ficou mais à esquerda do que antes.
- A liberdade de expressão deixou de ser prioridade para a esquerda e virou bandeira central da direita, em disputa sobre o papel do Judiciário na democracia.
- O individualismo dos parlamentares cresceu, com menos seguimento automático de partidos e mais troca de siglas; jovens entram pelo ambiente digital, entrando na política com menos preparo coletivo.
- A pesquisa aponta um histórico apoio a intervenção militar no cenário político, destacando o artigo 142 da Constituição como ponto de cristalização do desafio democrático.
A polarização ideológica no Congresso ficou mais evidente em 2025, segundo a Pesquisa Legislativa Brasileira (PLB), coautoria de Cézar Zucco, professor da FGV. O estudo acompanha o Legislativo desde 1990 e aponta influência cada vez maior da disputa ideológica em boa parte das decisões. A ministra das contratações e o peso do orçamento são citados como exemplos de mudança de padrão.
A pesquisa ressalta que o Congresso acumulou poder orçamentário e, ao mesmo tempo, o comportamento individual dos parlamentares ficou mais acentuadamente voltado a interesses locais. A menos de uma década do impeachment de Dilma Rousseff, o que era uma flexibilidade institucional passou a se organizar em blocos e estratégias de captação de recursos, com menor responsabilização pelos impactos fiscais.
A polarização invadiu todos os temas
A PLB registrou em 2025 um aumento significativo da polarização entre os partidos. Segundo Zucco, a tendência não se restringe a temas tradicionais, atingindo até questões com margens de acordo antes existentes entre ideologias opostas. Ainda conforme o pesquisador, o conjunto de respostas dos parlamentares tem forte relação com a medida de ideologia adotada pela equipe.
Para o professor, a distância entre direita e esquerda cresceu, levando o legislador mediano a se posicionar mais à direita. O Congresso, de acordo com a análise, avançou para a direita enquanto o presidente aparece mais à esquerda do que em administrações recentes. A polarização também se manifesta na visão sobre a democracia e suas estruturas, não apenas em pautas políticas.
Essa mudança de eixo ideológico, conforme Zucco, coincide com um afastamento entre as decisões judiciais e as posições políticas. A direita tem visto decisões judiciais como limitadoras, enquanto a liberdade de expressão passa a figurar entre as bandeiras de defesa em disputas sobre o papel do Judiciário na democracia.
O deputado entrega a emenda –e ninguém cobra dele o déficit
Entre os achados da PLB, destaca-se o paradoxo entre o apoio formal a cortes de gastos e a votação favorável a emendas com destinação específica de recursos. O pesquisador aponta um sistema de incentivos que reduz a responsabilização individual pelos déficits: o benefício de distribuir recursos via emendas é claro, e a punição por má gestão é pouco frequente.
A transferência de poder orçamentário ao Congresso ganhou espaço com o que o estudo identifica como um vácuo de poder presidencial, observado desde o pré-impeachment de Dilma Rousseff até a gestão de Bolsonaro. A depender da configuração de governança, a tendência é de continuidade desse arranjo, dificultando o controle centralizado das contas públicas.
Liberdade de expressão virou arma para redesenhar Judiciário
A PLB aponta uma inversão recente: a esquerda, tradicionalmente prioritária na pauta da liberdade de expressão, passou a atribuir menor importância ao tema. Do outro lado, a direita elevou a expressão como bandeira central, associando-a a disputas sobre o papel do Judiciário.
O pesquisador destaca que decisões judiciais limitam o que pode ser dito no processo democrático, e a partir daí surgem disputas sobre legitimidade de questionar decisões da Suprema Corte. A judicialização da política é citada como um problema, pois decisões politizadas podem gerar instabilidade institucional.
Individualismo crescente dos parlamentares
O estudo registra aumento do individualismo entre parlamentares e maior distância entre as alas quando o tema é agir por conta própria versus seguir o partido. Zucco aponta que esse comportamento dificulta a governabilidade, com maior fragmentação e recrutamento de recursos por meio de canais locais.
O perfil de entrada dos jovens na política, especialmente por meio de redes sociais, pode ampliar esse cenário de atuação individualista no curto prazo. Com o tempo, o aprendizado institucional ainda é incerto em relação à cooperação com outras correntes partidárias.
A questão militar é nosso demônio democrático
A PLB mantém a observação de que uma parcela relevante do Congresso sustenta prerrogativas de intervenção das Forças Armadas na política. O artigo 142 da Constituição é citado como ponto de cristalização desse dilema, ainda que seja visto como ambíguo desde a Constituinte.
Especialistas destacam que o papel dos militares, ainda que importante em aspectos sociais, não deve estar alinhado a um equilíbrio entre Poderes. A análise enfatiza que, em uma democracia, o conflito entre Poderes é previsível, mas não há espaço para uma intervenção armada.
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