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A verdadeira razão pela qual nada funciona na Grã-Bretanha

Duas obras apontam que a mudança de manufatura para serviços e a complacência da elite ajudaram a empurrar a Grã-Bretanha para décadas de declínio

A line of commuters walking in profile against a cloudy sky, with a large, historic suspension bridge featuring two prominent towers softly blurred in the background. One person holds a brown umbrella.
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  • O livro The Land Where Nothing Works sustenta que a Grã-Bretanha vive um declínio de longo prazo, com maior desigualdade na Europa, pobreza infantil, produtividade baixa e a maior taxa de encarceramento ocidental, além de problemas de infraestrutura.
  • Em mil e vinte e três, famílias de renda média ficaram vinte por cento mais pobres que as alemãs e nove por cento mais pobres que as francesas; famílias de baixa renda são vinte e sete por cento mais pobres em relação aos dois países.
  • Hopkins atribui a deterioração a duas tendências históricas: a transição da manufatura para finanças e serviços, e a passagem da globalização compulsória do período imperial para a globalização eletiva do mundo pós-imperial.
  • O período entre 1945 e 1973 é visto como idade de ouro, com desemprego baixo, inflação controlada e ganhos reais; a crise de setenta, o choque petrolífero de 1973 e o “inverno do descontentamento” aceleraram o declínio, culminando na era Thatcher.
  • O livro Twilight of the Dons analisa o papel dos dons de Oxford e Cambridge na política, mídia e governo, apontando complacência e conservadorismo intelectual; a ascendência dos campus é encarada como fator de institucionalização do poder, ainda que a formação atual mantenha traços dessa tradição.

A obra The Land Where Nothing Works, do historiador A. G. Hopkins, questiona o atual ocaso político e econômico do Reino Unido. Em 2026, a publicação traça um retrato de uma nação que, segundo o autor, perdeu o rumo após décadas de mudanças institucionais e crises amplas. O livro, pela Princeton University Press, reúne 288 páginas com dados e análises históricas.

Hopkins aponta que o atraso britânico decorre da transição de manufatura para finanças e serviços, além de uma globalização menos coercitiva, mas mais seletiva. O debate começa no pós-Segunda Guerra, destaca o período de 1945 a 1973 como auge, e avança para o declínio com a crise de 2008, Brexit e pandemia de COVID-19.

Dados citados pelo autor ressaltam disparidades: famílias de renda média eram 20% mais pobres que alemãs e 9% que francesas em 2023; para as famílias de baixa renda, a diferença cresce para 27%. A publicação ainda destaca a desigualdade, a produção adiada e a inovação fracamente produtiva, além de altas taxas de encarceramento.

Conforme Hopkins, a reforma econômica desde 2008 intensificou o problema, com cortes de gasto entre 2010 e 2015 que deixaram o país para trás em comparação a pares europeus. O conjunto de situações, segundo ele, formou a era de Miséria, a pior desde 1945, abrindo espaço para críticas sobre liderança política recente.

O papel dos dons intelectuais

Outra obra em foco é Twilight of the Dons, de Colin Kidd, que analisa a influência de acadêmicos de Oxford e Cambridge entre a Segunda Guerra e o Thatcherismo. O livro sustenta que a presença dominante de Oxbridge moldou políticas públicas, imprensa e alta burocracia britânicas.

Kidd destaca exemplos de docentes que participaram diretamente do esforço de guerra, como clássico e filosofia, moldando decisões estratégicas. O debate central é que o elitismo acadêmico, embora brilhante, se tornou complacente e pouco crítico, favorecendo uma visão conservadora da sociedade.

O autor argumenta que a centralização de educação promovida por Margaret Thatcher acelerou mudanças institucionais, desmontando o elo entre universidades e o restante da sociedade. A partir daí, jovens formados em Oxbridge integraram a elite dirigente, mantendo traços de um conservadorismo informal.

Segundo Kidd, esse arranjo intelectual democratizou pouco a participação social, amplificando uma mentalidade de longo prazo que, no curto prazo, reduziu a capacidade de enfrentar choques e crises. O livro sugere que essa herdade acadêmica contribuiu para a dificuldade recente de adaptação do país.

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