- Documentos mostram que, em 2004, o Foreign Office alertou que intervenção militar para derrubar Robert Mugabe não era uma opção séria.
- O governo de Tony Blair avaliou opções como remoção forçada, medidas mais duras e reengajamento com o regime.
- Medidas como congelamento de ativos, fechamento da embaixada e outras ações foram consideradas, mas o isolamento não ganhou apoio africano, especialmente de Thabo Mbeki.
- O relatório determina que não haveria apoio internacional nem base legal para uma intervenção militar, sem uma resolução do Conselho de Segurança.
- Mugabe só foi deposto em 2017, por meio de um golpe; Blair defendeu trabalhar a longo prazo e buscar o reengajamento com Mugabe após expor as falas do regime.
O Foreign Office alertou em 2004 contra ação militar britânica para derrubar o então presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, afirmando que tal medida não era uma “opção séria”. Documentos recentemente tornados públicos mostram o governo de Tony Blair avaliando caminhos para lidar com o ditador, visto como parte de uma escalada de violência e crise econômica no país.
Os papéis de política indicam que Blair buscava opções diante de Mugabe, descrito como “depressivamente saudável” aos 80 anos, que se recusava a ceder mesmo com a eleição de 2005 ameaçada pela violência. Em julho de 2004, o primeiro-ministro pediu ao Foreign Office que apresentasse cenários para a situação.
Os documentos mostram que a estratégia de isolar Mugabe e construir uma coalizão internacional não obtinha apoio suficiente, inclusive de líderes africanos como Thabo Mbeki, então presidente da África do Sul. Entre as opções discutidas estavam força militar, medidas mais duras como congelamento de ativos e fechamento da embaixada e, ainda, a reengajamento, defendido pelo então embaixador em Zimbabwe, Brian Donnelly.
Opções consideradas
O relatório do FCO descartou a intervenção militar como “opção séria” e lembrou que mudanças externas de governo costumam falhar, citando Afeganistão, Iraque e Iugoslávia. A nota destacou que, para alterar a situação no terreno, o país seria pressionado a agir como fez com Saddam Hussein, o que não seria compartilhado por aliados.
Também aponta que apenas o Reino Unido apareceria disponível para liderar tal operação, com pouca probabilidade de apoio de Estados Unidos ou de outras potências. O documento alerta sobre potenciais baixas civis e impactos para britânicos no Zimbabwe, além de riscos de violência, refugiados e instabilidade regional.
Conforme o material, sem apoio africano significativo, europeu ou ocidental, a intervenção poderia não obter autorização de Conselho de Segurança ou base legal. O conteúdo cita ainda a possibilidade de consequências políticas para o conjunto da região e para a reputação do Reino Unido.
Contexto e desdobramentos
O avanço de Mugabe ao longo de 2004-2005 foi marcado por violência política e precariedade econômica. O relatório também registra a avaliação de Laurie Lee, assessor de política externa de Blair, de que Mugabe seria um desafio estratégico relevante para a agenda de África na cúpula do G8 em Gleneagles.
Blair chegou a concordar em buscar uma estratégia que expusesse abusos de Mugabe e Zanu-PF, com a ideia de, posteriormente, reengajar com base em termos claros. Donnelly, em telegrama de despedida, defendia a reengajamento crítico, ainda que Blair temesse a reação do líder zimbabuense.
Mugabe foi deposto apenas em 2017, por meio de um golpe, aos 93 anos. Em 2013, Thabo Mbeki alegou ter tentado convencer Blair a construir uma coalizão militar, uma afirmação negada pelo ex-primeiro-ministro.
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