- Cade publicou nota técnica em junho de 2026 mapeando regulações globais para acompanhar a concorrência no delivery de comida brasileiro, destacando riscos observados em outros países.
- Entre os temas, aparecem exclusividade, paridade de preços, uso de algoritmos para punir parceiros e subsídios agressivos financiados por grandes reservas de capital.
- A análise considera a chegada de concorrentes globais ao Brasil, como a Keeta (Meituan) e o retorno da 99Food, em um mercado hoje liderado pelo iFood.
- O Cade abriu um inquérito em novembro de 2025, direcionado a cinco municípios: São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Santos e São Vicente.
- A Keeta afirmou que trabalha para um mercado aberto e competitivo; iFood e 99Food não se manifestaram até o fechamento desta matéria.
O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) passa a monitorar de perto o mercado brasileiro de delivery de comida. Em nota técnica publicada em junho de 2026, o órgão mapeou experiências regulatórias de mais de uma dezena de países para embasar o acompanhamento da concorrência no Brasil. O diagnóstico é de alerta.
O documento usa benchmarking com autoridades dos EUA, UE, Japão, Argentina, Austrália e outros, apontando práticas que costumam preocupar reguladores globalmente. Entre elas estão cláusulas de exclusividade, paridade de preços impostas a restaurantes, uso de algoritmos para punir parceiros e subsídios agressivos financiados por grandes reservas de capital.
O estudo contextualiza a chegada de novos players ao Brasil, como a Keeta, marca internacional da Meituan, e o retorno da 99Food, braço de delivery da DiDi, em um mercado dominado pelo iFood e com participação da Rappi. O inquérito foi instaurado pela Superintendência-Geral do Cade em novembro de 2025, com foco em cinco municípios.
Contexto regulatório global
A nota tecnológica revisa casos emblemáticos ao redor do mundo para identificar riscos concorrenciais que podem emergir no Brasil. Em especial, aponta para mecanismos de sanção invisíveis, onde ajustes em algoritmos podem penalizar restaurantes sem cláusulas contratuais explícitas.
Casos observados incluem ações de reguladores na China, Sérvia, Hong Kong e Finlândia, entre outros, com auditorias de dados e de código ganhando relevância. Esses elementos reforçam a necessidade de acompanhar não apenas contratos, mas também procedimentos tecnológicos.
Melhores práticas e temas relevantes
Outro eixo é a discussão sobre cláusulas de nação mais favorecida (MFN), que limitam restaurantes de oferecer preços mais baixos em canais próprios ou em plataformas concorrentes. O efeito prático é reduzir a concorrência entre plataformas e elevar custos para restaurantes.
O documento também aborda subsídios agressivos, ou deep pockets, que podem sustentar estratégias de expansão até eliminar rivais. A OCDE é citada para ilustrar como capital disponível em alguns entrantes pode acelerar concentração e prejudicar a competição a longo prazo.
Estruturas de mercado e possíveis remédios
A nota traz ainda atenção a fusões, aquisições e participações minoritárias que podem concentrar o mercado. Exemplos internacionais citados incluem a exigência de venda de participação na Coreia do Sul para aprovar aquisição e o bloqueio de uma fusão em Taiwan por risco à rivalidade. No âmbito europeu, há casos de coordenação entre concorrentes ainda em operação.
No Brasil, o Cade sinaliza que pode aprofundar instrumentos tradicionais de avaliação de conduta, incorporando dinâmicas próprias de mercados digitais. O objetivo é entender melhor como estruturas e contratos podem afetar a competição no ecossistema de delivery.
Posicionamento das empresas
Em nota, a Keeta informou que busca um mercado aberto, justo, competitivo e saudável para o ecossistema de delivery. A empresa ressalta que pretende ampliar opções para restaurantes, entregadores e consumidores, com foco em diversidade de canais de venda.
Procuradas pela Bloomberg Línea, iFood e 99Food não se manifestaram até o fechamento desta publicação. A reportagem manterá o leitor atualizado com novos posicionamentos.
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