- O editorial do Financial Times afirma que a política industrial é a vantagem comparativa da China, com subsídios não sendo o principal fator de competitividade, especialmente no setor de veículos elétricos.
- A coluna destaca a importância da coordenação entre planejamento central e competição regional como elemento-chave da estratégia chinesa.
- O Banco Mundial também revisita críticas à política industrial, sugerindo que seus conselhos para países em desenvolvimento estão defasados; a China é apresentada como exemplo de sucesso.
- A ideia central é “conquistar a cidade a partir do campo”: desenvolver capacidades produtivas a partir das necessidades da população e do padrão de renda nacional.
- No Brasil, exemplos de campeões nacionais e regionais — como Totvs, Natura, NC / EMS, M. Dias Branco, Randoncorp, Dexco e Jacto — são citados como evidência de que mercados locais podem sustentar políticas industriais voltadas a demandas nacionais.
Nesta semana, o Financial Times publicou um editorial que analisa os motivos do sucesso da estratégia de desenvolvimento chinesa, afirmando que a política industrial é a vantagem competitiva do país. O texto questiona críticas clássicas à intervenção estatal e sugere que subsídios não seriam o principal motor da competitividade, especialmente no setor de veículos elétricos.
A coluna destaca a coordenação entre planejamento central e competição regional como fator central, indo além da visão de salários baixos ou subsídios isolados. O Banco Mundial também é citado, com um relatório que revisita críticas anteriores à política industrial e aponta novos panoramas para países em desenvolvimento.
Essa leitura conjunta evidencia um amadurecimento do debate sobre industrialização, ao enfatizar metas rígidas, investimento coordenado e transferência de tecnologia com participação de multinacionais. Economistas e formuladores de política têm passado a considerar mais fortemente o papel das capacidades produtivas nacionais.
Entre as ideias centrais, destaca-se o conceito de “conquistar a cidade a partir do campo”, expressão que remonta à Longa Marcha. A estratégia chinesa prioriza atender às necessidades da população nacional, desenvolvendo produtos manufaturados compatíveis com o nível de renda doméstico. O objetivo é evitar a reprodução de modelos voltados a economias mais maduras.
Essa abordagem favorece a criação de capacidades produtivas a partir de mercados inicialmente negligenciados pelo capital internacional. Um exemplo citado é a Huawei, que iniciou sua atuação em telecomunicações voltadas ao meio rural chinês, setor pouco explorado por empresas estrangeiras na abertura econômica de 1978.
A recente ascensão dos veículos elétricos na China também é associada a essa lógica. O Hongguang Mini EV, da Wuling, atingiu mais de 2 milhões de unidades entre 2020 e 2025, fortalecendo escala, aprendizado e inovação no setor de baterias. O produto combinou baixo custo, foco urbano e funcionalidade.
Outros casos mencionados incluem scooters elétricas populares e baterias de fosfato de ferro-lítio, que passaram de tecnologias simples a bases de liderança industrial. A ideia é que restrições locais de renda e infraestrutura impulsionaram melhorias tecnológicas e competitividade internacional.
No contexto brasileiro, a análise sugere que segmentos de mercado atendendo aos padrões de renda nacionais podem sustentar a construção de capacidades produtivas e tecnológicas. O argumento é de que o modelo não se restringe a tecnologia de ponta, mas abrange cadeias locais com potencial de expansão.
Casos nacionais citados exemplificam esse caminho. A Totvs, líder em software de gestão, atua com soluções para empresas de médio porte, valorizando o conhecimento do mercado local. A Natura, com investimento em P&D e uso de biodiversidade, também é apontada como exemplo de aliança entre preço acessível e rede de revendas.
Outra referência é a NC / EMS, importante fabricante de genéricos no Brasil, com forte atuação no mercado interno. Empresas como M. Dias Branco, no setor de alimentos, e Randoncorp, no automotivo, são lembradas pela presença de marcas regionais e pela oferta de peças e produtos para o mercado nacional. A Dexco e a Jacto também aparecem entre os casos de atuação local com forte presença doméstica.
A leitura sugere que a estratégia brasileira pode se beneficiar da ideia de desenvolver capacidades produtivas a partir de demandas locais, fortalecendo o capital nacional e ampliando a legitimidade da política industrial. O debate, segundo os especialistas citados, estaria ganhando maior consistência ao reconhecer a importância de mercados internos para a inovação.
Antônio Carlos Diegues, professor da Unicamp, assina a análise apresentada, destacando a relevância de transformar demandas da população em bases para a industrialização. A proposta é observar como esse marco pode orientar políticas industriais nacionais e o despertarem de campanhas para ampliar a integração entre mercado interno e inovação.
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