- A compressão de preços da cannabis está ocorrendo há anos e é apresentada pelo relatório como etapa previsível de maturação do mercado, não falha de mercado.
- Nos EUA, a capacidade de oferta legal é muito maior que a demanda, e apenas 27,3% dos operadores tiveram lucro em 2024; o setor acumulou cerca de US$ 3,8 bilhões em inadimplência até 2023.
- No Canadá, produtores licenciados ampliaram rapidamente a oferta após a legalização, destruíram mais de 425 toneladas de cannabis em 2021 e quase 50% caiu o preço atacado entre 2021 e 2025.
- Na Alemanha, as importações passaram de 4,5 toneladas em 2018 para cerca de 201,1 toneladas em 2025, com queda de preço de aproximadamente 25% em dois anos e meio.
- O estudo aponta que a trajetória de preços segue uma curva logística em S: quedas mais profundas à medida que o mercado amadurece, exigindo planejamento de custos e estratégias de oferta para evitar perdas.
A queda nos preços da cannabis vem sendo observada há anos, principalmente em mercados maduros. Novo relatório conjunto da Whitney Economics e do Global Cannabis Network Collective (GCNC) afirma que a compressão de preços é uma fase prevista da maturação do setor, não uma falha de mercado.
O estudo, publicado recentemente, usa dados dos Estados Unidos, Canadá e Alemanha, além de perspectivas de Israel, México e Peru. A partir de uma modelagem inspirada na logística, a análise aponta padrões de preço em cada etapa de desenvolvimento.
Segundo os autores, novos mercados começam com oferta restrita e preços elevados. Em geral, após três a sete anos, a oferta supera a demanda, levando quedas de 10% a 20% ao ano até a estabilização perto dos custos de produção.
O relatório sustenta ainda que o problema não é o ciclo em si, mas a ênfase regulatória na demanda e no acesso, muitas vezes ignorando a oferta. Reguladores e operadores podem, assim, subestimar esse aspecto crítico.
O mercado americano
Nos EUA, a capacidade de oferta autorizada é vastamente superior à demanda, estimada entre 600% da demanda legal e 225% da demanda total. Em 2024, apenas 27,3% dos operadores registraram lucro, conforme a Pesquisa Anual de Condições de Negócios.
Dados de inadimplência divulgados pela Whitney em 2024 apontam cerca de US$ 3,8 bilhões em dívidas vencidas até o fim de 2023. Em 2025, as receitas do mercado legal recuaram para entre US$ 28,6 bilhões e US$ 29,6 bilhões, abaixo de 2024.
O desempenho inferior ao previsto levou a queda de faturamento em 24 estados no ano citado, destacando a sensibilidade do setor a mudanças regulatórias e de oferta.
O precedente canadense
No Canadá, a legalização de uso adulto em 2018 acelerou expansão de capacidade entre produtores licenciados. A pressão levou ao acúmulo de estoques não vendidos, com mais de 600 toneladas em 2020, segundo Health Canada.
Em 2021, o regulator informou que 425 toneladas de cannabis seca não embalada foram destruídas, correspondentes a 26% da produção. Entre 2022 e início de 2024, mais de 42 empresas entraram com insolvência.
Além disso, o preço atacado da flor canadense caiu quase 50% entre 2021 e 2025, conforme dados da Global Cannabis Exchange compilados no estudo.
Alemanha: estudo de caso em tempo real
A Lei de Cannabis da Alemanha, vigente desde abril de 2024, abriu o mercado para prescrição por telemedicina e entregas por correio. Importações subiram de 4,5 toneladas em 2018 para cerca de 201,1 toneladas em 2025.
A oferta atual atende entre 900 mil e um milhão de consumidores, contra uma base de pacientes entre 700 mil e 900 mil. Com isso, os preços caíram cerca de 25% em dois anos e meio.
O relatório aponta que o reembolso e novas vias de acesso alteraram rapidamente a estrutura de preços, movendo o mercado de um patamar de escassez para um ambiente de maior competição.
Um padrão previsível
A curvatura dos preços segue uma curva logística em S: quedas lentas no início, compressão rápida na expansão e estabilização na maturidade. Empresas que antecipam esse movimento tendem a sustentar melhor as margens.
Casos como Missouri, nos EUA, mostram estabilidade de preços devido a licenças distribuídas de forma controlada. Na Suíça, o modelo regulatório mais rígido manteve a estabilidade de custos no setor farmacêutico.
O estudo ressalta que a velocidade da compressão depende das decisões políticas de cada governo. Operadores bem informados já consideram essa trajetória ao planejar expansões.
Sobre o objetivo do relatório
O GCNC afirma que o objetivo é oferecer visão clara de evolução de mercados, pontos de pressão de preços e alertas para decisões de investimento. O documento reúne dados regionais e perspectivas de reguladores e operadores.
A pesquisa reforça que compressão de preços indica maturação, não crise. Empresas que desconsideram esse movimento podem enfrentar impactos financeiros, enquanto quem se antecipa tende a manter competitividade.
Reportagem publicada originalmente em Forbes.
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