- O artigo lembra o conflito de 1992 a 1995 e a violenta consequência em Srebrenica, apontando que, para a prática ocidental, progresso em BiH tem sido medido principalmente por reformas constitucionais e responsabilização por crimes de guerra, com cortes de recursos da UE por não cumprir metas de reforma.
- Aponte que o progresso real pode estar na interdependência econômica entre as entidades, não na política, com sinalização de crescimento econômico estável e maior integração étnica.
- Dados-chave: BiH tem crescimento real médio de cerca de 3% ao ano na última década; empresas pequenas e médias respondem por grande parte do valor agregado e do emprego; a economia depende de redes entre entidades, como na empresa de energia Elektroprenos BiH e no Bingo Group.
- Fatores de ligação vão além da política: remessas na casa dos bilhões, investimentos diretos estrangeiros significativos e uma malha de transportes, telecomunicações e cadeias de suprimento que cruzam fronteiras étnicas.
- Recomendações: repensar métricas de reconciliação para incluir cooperação econômica entre entidades, priorizar financiamentos que incentivem projetos conjuntos, evitar linguagem de “conflito congelado” e usar a economia compartilhada como base para futuras estratégias de justiça transitional.
Bosnia e Herzegovina continua em foco após três décadas desde a guerra de 1992-95, que deixou 100 mil mortos e o genocídio de Srebrenica. Analistas ocidentais costumam classificar o país como um conflito “congelado”, mas há mecanismos de convivência econômica que avançam silenciosamente a reconciliação.
Segundo o texto, a agenda de justiça transitional tem priorizado reformas constitucionais e responsabilização por crimes de guerra, enquanto cortes de apoio econômico foram condicionados por atrasos na adoção de reformas. O país já perdeu parte de auxílios da UE por não cumprir metas, e corre risco de perder ainda mais recursos caso não atenda requisitos até o fim do ano.
A narrativa dominante subestima um motor central: a vida econômica diária que opera além das cadeias políticas. Comércio entre entidades, hubs logísticos, serviços públicos municipais e cadeias de produção cruzadas mantêm o funcionamento do país e fortalecem a integração entre comunidades.
Estudos e dados de pesquisas apontam que a integração econômica entre bosníacos, croatas e sérbios já é uma prática comum desde 1995. O crescimento econômico médio vem se mantendo em torno de 3% ao ano na última década, com resultados positivos quase todos os anos, exceto 2020.
A participação do setor privado é destaque. Empresas de pequeno e médio porte respondem por quase dois terços do valor agregado e da empregos no país, atuando em redes que ultrapassam fronteiras entre as entidades. Trabalhadores cruzam bairros e cadeias de suprimentos em busca de oportunidades.
A diapasão política, porém, permanece instável. Em Republika Srpska, líderes desafiam a autoridade do Estado, enquanto reformas eleitorais étnicas avançam entre croatas, dificultando a formação de governo. A cláusula de Dayton continua a restringir candidaturas, e decisões judiciais internacionais já apontaram discriminação de determinadas vagas.
O que se destaca é a continuidade da vida econômica transentidades. Caminhões atravessam a linha de fronteira interentidades, e redes de empresas como Bingo Group operam em ambas as zonas. Mesmo em meio a crises políticas, o funcionamento diário sustenta a convivência pacífica.
O artigo sugere que o modelo de reconciliação pode inspirar outras situações de pós-conflito. Casos de cooperação econômica entre grupos étnicos criam incentivos para evitar violência e fortalecem identidades compartilhadas. Em comparação, a intervenção russa na Ucrânia se apoiou em laços econômicos pré-existentes para consolidar fronteiras.
Para o futuro, o texto recomenda que métricas de reconciliação passem a incluir comércio interentidades, empregos mistos e governança de infraestruturas compartilhadas, além de indicadores de direitos humanos e constitucionais. A cooperação econômica cruzada deve ser prioridade em programas de financiamento e reparação.
Em termos práticos, o autor propõe que avaliações pós-conflito incluam auditorias de interdependência, que contratos públicos incentivem subcontratações transcomunitárias e que políticas fiscais recompensem contratação e propriedade compartilhadas. A ideia é transformar a cooperação econômica em alicerce sustentável de paz.
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