- A Selic caiu 0,25 ponto percentual, indo para 14,75% ao ano, o primeiro corte em quase 24 meses; o Copom ligou próximos movimentos ao cenário externo.
- O Federal Reserve manteve a taxa entre 3,50% e 3,75% e elevou a projeção de inflação para 2,7%, com a guerra no Oriente Médio pressionando preços.
- O custo do crédito no Brasil é elevado: taxa média no crédito livre chegou a 47,8% ao ano em janeiro de 2026, com spread de 21,9 pontos percentuais.
- Quem não tem garantias sofre com crédito caro ou negado, pois bancos preferem emprestar ao governo e exigem garantias reais, com juros de cartão e cheque especial acima de 400% ao ano.
- O cenário afeta o crescimento das empresas: quase um quarto das listadas não gera caixa suficiente para pagar juros; casos como Grupo Pão de Açúcar e Raízen apresentam demandas de recuperação judicial, com a Raízen buscando renegociação de cerca de R$ 65 bilhões.
A Selic caiu 0,25 ponto percentual na quarta-feira, passando de 15% para 14,75% ao ano, o primeiro recuo em quase 24 meses. O Copom informou que os próximos movimentos dependem do cenário externo. No mesmo dia, o Fed manteve a taxa norte-americana entre 3,50% e 3,75%, elevando a percepção de aperto global. A guerra no Oriente Médio também pressionou preços de petróleo e combustíveis. O recuo, portanto, tende a ser gradual para o crédito.
O custo do crédito no Brasil permanece elevado por fatores estruturais. Em janeiro de 2026, a taxa média do crédito livre chegou a 47,8% ao ano, com spread bancário de 21,9 p.p. A inadimplência, concentrada e com baixo grau de competição entre bancos, sublinha a dificuldade de obtenção de crédito por empresas.
Custo do crédito e acesso
Mesmo com juros altos, muitas empresas enfrentam recusa de crédito. Bancos preferem emprestar ao governo, comprando títulos públicos, em vez de financiar pequenas e médias empresas. Garantias reais são raras, o que eleva o custo e reduz a oferta de crédito. Linhas com aval de sócios ficam entre as opções mais usadas.
Quem não tem imóveis, recebíveis, ou equipamentos pode depender de linhas caras, como cartão de crédito e cheque especial, com juros acima de 400% ao ano. O custo de capital influencia o planejamento: o foco passa a ser quitar dívidas, e não expandir.
Cenário de caixas e recuperação judicial
Estudos com 282 empresas listadas na bolsa indicam que quase 25% não geram caixa suficiente para pagar juros. A Fitch aponta que dívidas de três vezes a geração de caixa consomem 50% da receita para juros. Casos recentes incluem Raízen e Grupo Pão de Açúcar, que anunciaram recuperação extrajudicial na mesma semana e pleiteiam renegociação de dívidas.
A origem do problema se sustenta em ciclos anteriores: entre 2020 e 2021, com Selic de 2%, empresas se endividaram para expansão. Com inflação e juros elevados, o custo dessas dívidas se acelerou. Em 2024, o Brasil teve 2.273 pedidos de recuperação judicial, alta de 61,8% frente a 2023, com 74% das situações envolvendo micro e pequenas empresas. Em 2025, houve 5.680 recuperações judiciais, o maior volume já registrado, com 8,9 milhões de inadimplentes e R$ 213 bilhões em dívidas negativadas.
Caminhos para a prática empresarial
Especialistas indicam disciplina na gestão de fluxo de caixa e alinhamento entre recebimentos e pagamentos. Alternativas ao crédito bancário tradicional incluem linhas de crédito incentivado à inovação, fundos de direitos creditórios e garantias estruturadas com condições mais flexíveis. O cenário é de volatilidade, exigindo planejamento robusto e controle financeiro.
A leitura para o empresário não é sobre quando a Selic cairá, mas se sua empresa está preparada para o momento em que o corte chegar ao caixa. O ambiente atual funciona como filtro: aponta fragilidades de gestão, mas também premia quem mantém as contas em ordem.
— Anderson Bertarello, Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
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