- A Raízen, joint venture entre Shell e Cosan, protocolou recuperação extrajudicial no Tribunal de Justiça de São Paulo, com dívidas consolidadas de R$ 65 bilhões.
- O montante é o maior já incluído em um processo desse tipo no Brasil, destacando a empresa como centro de uma das crises mais profundas do agronegócio nacional.
- A Raízen processou cerca de 77,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2024/25, e responde por aproximadamente 12% de toda a cana produzida no país.
- A empresa abriu o capital em agosto de 2021 na B3, com valor de mercado estimado em R$ 74 bilhões, captando R$ 6,9 bilhões; o projeto incluía investimentos significativos em etanol de segunda geração.
- O tamanho do pedido de recuperação extrajudicial supera em velocidade e dimensão casos anteriores no setor, em meio a avaliação de aportes adicionais de acionistas e credores, incluindo a Shell, que confirmou aporte de R$ 3,5 bilhões para a reestruturação.
A Raízen protocolou um pedido de recuperação extrajudicial no Tribunal de Justiça de São Paulo, envolvendo dívidas de 65 bilhões de reais. O montante é o maior já incluído nesse tipo de processo no Brasil e coloca a joint venture entre Shell e Cosan no centro de uma crise no agronegócio nacional. Há menos de cinco anos, a empresa abriu um dos maiores IPOs da B3, avaliando a companhia em torno de 74 bilhões de reais.
A história da Raízen começa com a expansão do grupo Cosan no setor de energia, que, em 2008, comprou ativos da Esso da ExxonMobil. Em 2011, Cosan e Shell criaram a joint venture, com 44% de cada sócia e 12% distribuídos entre outros acionistas. O nome remete à raiz da cana-de-açúcar, principal matéria-prima da empresa.
Origens e expansão estratégica
A Raízen consolidou-se como a maior processadora de cana e a maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar. Na safra 2024/25, processou aproximadamente 77,5 milhões de toneladas de cana, mantendo posição de destaque no setor. A empresa também atua na Argentina, operando sob licença da marca Shell e tornando-se segunda maior distribuidora local de combustíveis.
IPO e aposta em energias renováveis
Em agosto de 2021, a Raízen abriu capital na B3, com valor de mercado de cerca de 74 bilhões de reais e captação de 6,9 bilhões. A demanda chegou a 30 bilhões, com parte substancial de investidores pessoas físicas. O plano central era ampliar a produção de etanol de segunda geração (E2G), prevista para 10 anos, com 20 plantas e contratos de comercialização de 4,3 bilhões de litros com a Shell.
Endividamento e dificuldades
O E2G demandava alto CAPEX, estimado em 1,2 bilhão de reais por planta. Paralelamente, a Raízen passou a atuar em áreas além do core business, elevando a alavancagem. O cenário de juros elevado agravou a situação financeira e tornou insustentável o modelo de financiamento de longo prazo.
Papel de Rubens Ometto e da Shell
Rubens Ometto Silveira Mello, à frente da Cosan, foi protagonista na transformação do grupo em uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do Brasil. Em 2021, figurava entre os maiores bilionários do país. Ao menos parcialmente, a queda de valor da Raízen e da Cosan impactou seu patrimônio, com aportes pessoais previstos para reforçar a reestruturação.
A Shell, presente no Brasil desde 1913, confirmou aporte de 3,5 bilhões de reais para a capitalização da joint venture como principal financiador da reestruturação, após a Cosan sair das negociações conjuntas.
Impacto setorial e contexto de recuperação
O montante pedido pela Raízen representa cerca de 26 vezes o maior caso recente no agronegócio, segundo observatórios do tema. A empresa responde por cerca de 12% de toda a cana processada no Brasil, com moagem anual superior a 80 milhões de toneladas, operando com produtores em uma rede extensa.
A recuperação extrajudicial, mecanismo mais ágil que a judicial, envolve negociações diretas entre dívida e credores. No setor, os pedidos de recuperação judicial cresceram, com 1.990 solicitações em 2025, o maior volume desde o início da série, segundo dados de Serasa Experian.
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