- Em 6 de fevereiro, a União Europeia lançou o 20º pacote de sanções contra a Rússia, incluindo restrições a fertilizantes russos, com impactos esperados no mercado global.
- O relatório de Kip Tom indica que as sanções elevam o custo de fertilizantes, aumentando despesas de produtores em países pobres e pressionando preços de alimentos, além de impactarem também os EUA.
- O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, com a Rússia sendo fornecedora principal de cloreto de potássio; as importações ficam entre US$ 3 bilhões e US$ 4,5 bilhões por ano.
- O encarecimento dos insumos eleva os custos de produção na agroindústria brasileira, reduz margens e dificulta decisões de planteio, já que a substituição de fornecedores é lenta.
- O relatório sustenta que as sanções são disruptivas economicamente e pouco eficazes geopoliticamente, tendo efeitos em cadeias produtivas, inflação de alimentos e segurança alimentar global.
O pacote de sanções da União Europeia contra a Rússia, anunciado em 6 de fevereiro, pode impactar o mercado global de fertilizantes e elevar custos para produtores ao redor do mundo, incluindo o Brasil. A análise parte de um relatório de Kip Tom, ex-embaixador dos EUA junto à FAO, que avalia as consequências econômicas da medida.
Segundo Tom, a dependência mundial de fertilizantes russos expõe agricultores de países pobres a aumentos de preço significativos, agravando a insegurança alimentar. A estratégia EU, útil para pressionar a Rússia, pode trazer efeitos colaterais que vão além das fronteiras europeias e afetam a produção global de alimentos.
O Brasil no mapa de impactos
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, com a Rússia figurando entre os principais fornecedores, especialmente de cloreto de potássio. Entre US$ 3 bilhões e US$ 4,5 bilhões em importações anuais estão vinculados a esse insumo, representando 25% a 33% do total externo.
A elevação de custos dos fertilizantes pressiona diretamente o custo de produção agrícola, que varia entre 20% e 40% em culturas como soja, milho, café e cana, conforme a região. Com o encarecimento, margens recuam e decisões de plantio ficam sob pressão.
Efeitos amplos na economia e na Ucrânia
No cenário macro, o aumento de custos agrícolas alimenta inflação de alimentos e reduz a competitividade das exportações brasileiras. A demanda por insumos no Brasil fica sensível a choques geopolíticos, ainda que haja esforços de diversificação de fornecedores.
Para a Ucrânia, o custo de manter o conflito aumenta diante de preços de fertilizantes elevados. A situação expõe a vulnerabilidade de países aliados que dependem de insumos importados para sustentar a produção de alimentos.
Relatório de Kip Tom: números e críticas
Tom aponta que, entre 2022 e 2025, os preços de potássio e fosfato mostraram alta relevante, elevando custos para agricultores. Nos EUA, fertilizantes respondem por cerca de 45% dos custos de culturas como milho e trigo, afetando a rentabilidade.
O relatório destaca que quase 293 fazendas recorreram a pedidos de falência em 2025, aumento de 36% em relação a 2024. A projeção para 2026 aponta combinação de custos altos e demanda fraca, prejudicando decisões de plantio.
Impacto social e desenvolvimento
O estudo registra que, em 2022, o custo global de importação de fertilizantes quase dobrou, atingindo US$ 424 bilhões, com impactos desproporcionais em países em desenvolvimento. Em Gana e no Quênia houve queda de produção e aumento de preços de itens básicos, como farinha de milho.
No Brasil, dados da Serasa Experian indicam 1.582 pedidos de recuperação judicial do agronegócio até o terceiro trimestre de 2025, com grande parte dos custos de produção atrelada a fertilizantes. Em 2024, o país bateu recorde de falências no setor.
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