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Le Guerroué afirma que proteger a origem já não basta para IGs no Brasil

Indicações Geográficas no Brasil passam a priorizar sustentabilidade, tecnologia e governança, exigindo investimentos para provar a ligação com o território diante das mudanças climáticas

Jean-Louis Le Guerroué, pesquisador francês radicado no Brasil
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  • O pesquisador francês radicado no Brasil, Jean-Louis Le Guerroué, afirma que as indicações geográficas no Brasil devem incorporar sustentabilidade, tecnologia e governança para avançar, não apenas proteger a origem.
  • O Brasil tem 175 Indicações Geográficas registradas (132 Indicações de Procedência e 43 Denominações de Origem), com 15 pedidos em análise; a diferença reflete os diferentes graus de comprovação exigidos.
  • Transformar IP em DO exige pesquisas complexas e investimentos elevados; estudos que relacionam microbiota, ambiente e qualidade podem custar entre 300 mil e 400 mil reais.
  • Dados internacionais da oriGIn mostram faturamento de 73,1 bilhões de euros, exportações de 58,9 bilhões de euros e 640 mil empregos diretos, em 32 grupos de IG de 20 países; o Brasil não possui dados econômicos divulgados.
  • A governança das IGs é essencial: precisam de articulação entre produtores, instituições, pesquisa e poder público; o caderno de especificações é crucial para preservar a essência da indicação, enquanto mudanças climáticas e gestão de sucessão geracional demandam novas formas de governança e inovação.

O pesquisador franco-brasileiro Jean-Louis Le Guerroué, da UnB, afirma que a próxima etapa das Indicações Geográficas (IGs) no Brasil depende da capacidade de incorporar sustentabilidade, tecnologia e governança. O marco é a adequação dos territórios às novas demandas de mercado.

Em Gramado (RS), durante o Connection Terroirs do Brasil, ele destacou que IGs vão além da proteção do nome e passam a defender história, recursos e saber-fazer de comunidades. A discussão ganha espaço entre produtores, entidades setoriais e centros de pesquisa.

A expansão do sistema brasileiro é visível: segundo o INPI, o Brasil tem 175 IGs registradas, com 132 Indicações de Procedência (IP) e 43 Denominações de Origem (DO); outros 15 pedidos aguardam análise. A diferença reflete exigências distintas de comprovação.

Para avançar para DO, são necessários estudos que comprovem a ligação entre produto, território e fatores naturais e humanos. Le Guerroué cita custos entre R$ 300 mil e R$ 400 mil para pesquisas que relacionem microbiota, ambiente, genética e qualidade.

A escolha pela IP costuma exigir menos comprovação científica, o que explica o volume maior de IPs. Ainda assim, muitas IPs poderiam ser DO, dependendo de recursos, estratégias e capacidade de pesquisa dos territórios.

No cenário global, a oriGIn divulgou dados de 2026 com 32 grupos de IG de 20 países, somando cerca de 20 mil IGs. O faturamento agregado chega a 73,1 bilhões de euros, com 58,9 bilhões em exportações e 640 mil empregos diretos.

As mudanças climáticas emergem como fator central. Le Guerroué afirma que regimes de chuva, temperatura e eventos extremos já afetam produções, elevando o risco de descaracterizar atributos do produto.

A União Europeia expandiu o escopo das IGs para incluir biodiversidade, gestão de recursos hídricos, agroecologia e eficiência energética, ampliando os requisitos de sustentabilidade nas certificações.

O pesquisador aponta que a inovação não se limita à tecnologia. A evolução do perfil do consumidor exige rastreabilidade e autenticidade, o que aumenta a responsabilidade dos territórios produtores.

A governança interna é destaque na discussão. Le Guerroué defende IGs como bem público do território e não como marca privada, exigindo participação de produtores, associações, pesquisa, governos e empresas.

Ainda segundo ele, muitos produtores atuam de forma isolada e nem sabem o que é uma IG, o que atrasa a integração com restaurantes, universidades e turismo. A falta de regularização complica o acesso a certificação e valorização econômica.

Os cadernos de especificações — que delimitam regras de produção e critérios de avaliação — são apontados como desafio central. Suas discussões envolvem métodos, delimitação geográfica, características do produto e controle.

Segundo Le Guerroué, o equilíbrio entre preservação e prosperidade é essencial para manter a identidade das IGs. Inovação sem perder a alma da indicação geográfica é o objetivo-chave para o futuro.

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