- Gerry Flynn é jornalista da Mongabay, baseado no Sudeste Asiático desde 2017, com foco em direitos humanos, ecossistemas e governança de recursos naturais na região.
- Em 2023 ingressou na Mongabay e passou a investigar desmatamento ilegal, pesca, mineração e grilagem, com atuação especialmente no Camboja.
- Um dos trabalhos de destaque foi a investigação de 2023 sobre uma grande operação de logging legal em Stung Treng, envolvendo concessionários, redes de proprietários e um alto funcionário do governo, acompanhada de análises de satélite e campo.
- Em janeiro de 2025 Flynn foi negado o ingresso e banido do Camboja, movimento visto como retaliação pela cobertura jornalística; ele mantém o compromisso com jornalismo baseado em evidências.
- Ele destaca a resiliência de comunidades locais, a importância de confirmar informações no terreno e o papel do jornalismo em preencher lacunas em regimes com mídia sob controle estatal.
Gerry Flynn, jornalista da Mongabay, atua desde 2017 na Ásia, com foco na interseção entre direitos humanos, ecossistemas e governança de recursos naturais no Sudeste Asiático. Mudou-se para Camboja, onde reporta sobre meio ambiente e abusos de poder ligados à exploração de recursos.
Desde 2022, durante a Rainforest Investigations Network Fellowship com a Pulitzer Center, Flynn investigou redes de desmatamento ilegal no Camboja, com ênfase nas Montanhas Cardamom. Em 2023 ingressou na Mongabay como redator de reportagens especiais, mantendo investigações sobre desmatamento, pesca, mineração e ocupação de terras.
Em janeiro de 2025, Flynn teve entrada negada e foi banido do Camboja, tarefa descrita como retaliação às suas reportagens. A prática, segundo ele, reforça a importância do jornalismo baseado em evidências para expor infrações contra a natureza em regimes autocráticos.
Atuação, método e contexto
Flynn aponta que a região Mekong impõe desafios legais e de liberdades de imprensa, o que torna necessária uma abordagem “faça você mesmo” para coletar dados e informações. Ele diz que a ausência de transparência pública demanda uso intenso de dados abertos, satélite e trabalho de campo.
Apesar da repressão, o repórter identifica resistência de comunidades locais que continuam a enfrentar repressões políticas. Em suas palavras, sempre há alguém se levantando contra interesses que lucram com o saque de recursos naturais.
O trabalho de Flynn envolve combinar investigação de campo com análise de fontes abertas e redes sociais para mapear estruturas de poder ligadas ao desmatamento e à extração ilegal. Em Camboja, isso exige planejamento cuidadoso de segurança e logística, incluindo rotas de fuga e coordenação entre a equipe.
Destaques de reportagens e impactos
Entre os trabalhos que marcam sua trajetória está a investigação de 2023 sobre uma grande operação de desmatamento legalizado no Camboja, na província de Stung Treng. A reportagem revelou exploração de florestas primárias, com concessões de quase 6 mil hectares a uma empresa privada, sem planos públicos divulgados.
A apuração utilizou imagens de satélite para monitorar estradas de logging criadas dentro de concessões e confirmou que a madeira era processada em serrarias da empresa e transportada por caminhões para o interior do país. A investigação associou o operador a um alto funcionário civil de alto escalão com atuação frequente junto à elite governante.
O trabalho também mostrou como a rede de logística clandestina envolvia várias camadas de proprietários, com informações cruzadas entre dados oficiais parciais, redes sociais e contatos empresariais. Em resposta, surgiram denegação oficial e prisões de jornalistas locais por incitamento, além de ameaças a ativistas que colaboraram com a reportagem.
Flynn descreve as expedições de campo como parte essencial da narrativa jornalística: uso de atividades como monitoramento de satélite, deslocamentos por estradas, rios, barcos e drones para registrar atividades ilegais. O recrutamento de parceiros locais e a colaboração com defensores ambientais foram cruciais para consolidar as evidências.
Em entrevistas, o jornalista destaca ainda que, apesar da gravidade das descobertas, existem momentos de esperança quando comunidades resistem a abusos de poder. Ele ressalta que o objetivo é esclarecer o custo humano das políticas ambientais, mesmo em contextos de propaganda estatal pró-crescimento.
Contexto profissional e lições
Flynn observa que, em áreas com liberdades de imprensa limitadas, é fundamental analisar dados de várias fontes e manter protocolos de segurança rigorosos. Também destaca a importância de entrevistar pessoas locais para compreender o impacto real das políticas ambientais.
Ao falar sobre orientação para jornalistas iniciantes, ele enfatiza a necessidade de aprender o idioma local, entender o contexto histórico e planejar cuidadosamente cada viagem de reportagem. O compromisso com a factualidade e a responsabilidade são apresentados como pilares da profissão.
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