- O romance Língua Interior, de Kamel Daoud, vencedor do Prêmio Goncourt em dois mil e vinte e quatro, explora a guerra civil argelina pelo olhar de Aube.
- Aube, jovem sobrevivente, conversa com a filha que carrega no ventre, questionando a possibilidade de seguir a gestação diante da opressão de gênero no país.
- A obra destaca o esquecimento coletivo em nome da reconciliação nacional após a Década Negra, período em que cerca de duzentas mil pessoas teriam morrido.
- Não foi publicado na Argélia devido ao artigo cento e quarenta e seis da Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional, que pune a instrumentalização das feridas nacionais.
- Daoud, radicado na França, enfrenta acusações de apropriação de relatos de Saada Arbane, que ele nega, dizendo basear-se em depoimentos de várias pessoas; ele atuará na Festa Literária Internacional de Paraty.
Kamel Daoud, jornalista argelino, confirmou a presença na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, para divulgar Língua Interior, seu romance mais recente. A obra, cujo título original é Houris, aborda a guerra civil na Argélia e seus traumas. O livro disputa leitura sobre fé, violência e memória.
Aube, jovem sobrevivente dos massacres dos anos 1990, narra ao longo da história as consequências de uma década de conflito entre o governo militar e a Frente Islâmica de Salvação. O romance mergulha nos dilemas de uma mulher que carrega uma cicatriz física e emocional.
Daoud, radicado na França, já trabalhou como repórter durante o conflito. Hoje, suas crônicas costumam criticar o nacionalismo árabe e o fundamentalismo islâmico, o que lhe provoca críticas de setores oficiais e religiosos da Argélia.
A obra não foi publicada na Argélia, onde o artigo 46 da Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional criminaliza a instrumentalização das feridas da tragédia nacional. A narrativa carrega esse debate como epígrafe de Língua Interior, segundo a crítica.
Aube perdeu a voz em decorrência do ataque que dizimou sua aldeia; a língua interior é o meio de expressão da protagonista. O romance questiona a reconciliação imposta pela memória oficial e expõe feridas não resolvidas do país.
Saada Arbane, mulher argelina cuja história inspirou aspectos da narrativa, acusa Daoud de se apropriar de relatos sem consentimento. O autor nega, afirmando que a obra se baseia em relatos de várias pessoas e experiências.
A Flip marca a primeira confirmação de Daoud para o evento, que também pode abrir espaço para debate sobre ética literária e políticas nacionais que moldam a Argélia contemporânea. O autor pode ainda comentar sua visão sobre o papel da cultura diante do nacionalismo.
Em 2014, Daoud venceu o Goncourt de Romance de Estreia com O Caso Meursault, e agora apresenta Língua Interior, que continua a explorar feridas históricas do país. A obra chega ao público brasileiro pela editora DBA e terá tradução de Bernardo Ajzenberg. Fonte: CartaCapital.
Entre na conversa da comunidade