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Daoud chega a Paraty com romance sobre a guerra civil argelina, que expõe feridas não resolvidas e dilemas éticos diante da reconciliação nacional

Personagem real? A obra rendeu ao escritor o Goncourt, mas também acusações – Imagem: Francesca Mantovani
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  • O romance Língua Interior, de Kamel Daoud, vencedor do Prêmio Goncourt em dois mil e vinte e quatro, explora a guerra civil argelina pelo olhar de Aube.
  • Aube, jovem sobrevivente, conversa com a filha que carrega no ventre, questionando a possibilidade de seguir a gestação diante da opressão de gênero no país.
  • A obra destaca o esquecimento coletivo em nome da reconciliação nacional após a Década Negra, período em que cerca de duzentas mil pessoas teriam morrido.
  • Não foi publicado na Argélia devido ao artigo cento e quarenta e seis da Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional, que pune a instrumentalização das feridas nacionais.
  • Daoud, radicado na França, enfrenta acusações de apropriação de relatos de Saada Arbane, que ele nega, dizendo basear-se em depoimentos de várias pessoas; ele atuará na Festa Literária Internacional de Paraty.

Kamel Daoud, jornalista argelino, confirmou a presença na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, para divulgar Língua Interior, seu romance mais recente. A obra, cujo título original é Houris, aborda a guerra civil na Argélia e seus traumas. O livro disputa leitura sobre fé, violência e memória.

Aube, jovem sobrevivente dos massacres dos anos 1990, narra ao longo da história as consequências de uma década de conflito entre o governo militar e a Frente Islâmica de Salvação. O romance mergulha nos dilemas de uma mulher que carrega uma cicatriz física e emocional.

Daoud, radicado na França, já trabalhou como repórter durante o conflito. Hoje, suas crônicas costumam criticar o nacionalismo árabe e o fundamentalismo islâmico, o que lhe provoca críticas de setores oficiais e religiosos da Argélia.

A obra não foi publicada na Argélia, onde o artigo 46 da Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional criminaliza a instrumentalização das feridas da tragédia nacional. A narrativa carrega esse debate como epígrafe de Língua Interior, segundo a crítica.

Aube perdeu a voz em decorrência do ataque que dizimou sua aldeia; a língua interior é o meio de expressão da protagonista. O romance questiona a reconciliação imposta pela memória oficial e expõe feridas não resolvidas do país.

Saada Arbane, mulher argelina cuja história inspirou aspectos da narrativa, acusa Daoud de se apropriar de relatos sem consentimento. O autor nega, afirmando que a obra se baseia em relatos de várias pessoas e experiências.

A Flip marca a primeira confirmação de Daoud para o evento, que também pode abrir espaço para debate sobre ética literária e políticas nacionais que moldam a Argélia contemporânea. O autor pode ainda comentar sua visão sobre o papel da cultura diante do nacionalismo.

Em 2014, Daoud venceu o Goncourt de Romance de Estreia com O Caso Meursault, e agora apresenta Língua Interior, que continua a explorar feridas históricas do país. A obra chega ao público brasileiro pela editora DBA e terá tradução de Bernardo Ajzenberg. Fonte: CartaCapital.

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