- Cinco meses após a decisão da suprema corte de Israel de exigir melhoria na alimentação de detentos palestinos, ainda há relatos de fome extrema nas prisões.
- Samer Khawaireh, 45 anos, disse que em Megiddo e Nafha recebia apenas dez pedaços finos de pão por dia, com pouco hummus e tahine, e, duas vezes por semana, atum.
- Khawaireh perdeu 22 kg durante nove meses de cárcere e voltou parcialmente reconhecível apenas após a libertação, em meio a feridas por sarna.
- A Associação para os Direitos Civis em Israel (ACRI) acusa o governo de manter uma “política de fome” nas prisões; o serviço prisional afirma seguir padrões profissionais e cumprir a lei.
- A ACRI também pediu ao Tribunal Supremo o acesso da Cruz Vermelha às detentas palestinas e que o serviço prisional seja considerado em desacato por não cumprir a ordem de melhoria das condições.
Três meses após o Supremo Tribunal de Israel determinar que as prisões não ofereciam alimentação adequada a detidos palestinos, relatos de fome extrema persistem. Em Megido e Nafha, prisioneiros descrevem dietas muito restritas, com apenas pão fino ao longo do dia, pouco hummus, tahine e, ocasionalmente, atum. A versão de Samer Khawaireh, 45 anos, é de perda de peso acentuada durante nove meses de cárcere.
Khawaireh, jornalista de uma rádio de Nablus, foi detido na última terça-feira de abril e liberado há cerca de um mês. Ele afirma ter perdido 22 kg e chegado à liberdade com feridas de sarna e aparência física extremamente avermelhada e abatida, o que o levou a não reconhecer o filho de 9 anos, Azadeen, ao vê-lo ao retornar para casa.
A Reuters não conseguiu confirmar de forma independente o total de prisões com escassez de alimento, nem o número total de detentos afetados. Também não foi possível verificar a dieta de Khawaireh ou a extensão da recorrência dessas situações entre os cerca de 9 mil palestinos detidos em prisões israelenses.
Condições e relatos
Exames de 13 relatórios de visitas a prisões, compilados por advogados, indicam que 27 detentos reclamaram de falta de alimentação, com a maioria mantendo que as condições não mudaram desde a determinação judicial. A Associação para Direitos Civis em Israel (ACRI) acusa o governo de manter uma política de fome.
A Prisons Service de Israel reiterou que as acusações de “fome” ou negligência sistemática eram rejeitadas, afirmando que a nutrição e o cuidado médico seguem padrões profissionais e procedimentos operacionais. Em resposta, a instituição afirmou atuar conforme a lei e as decisões judiciais, destacando a apuração de queixas pelos canais oficiais.
Implicações políticas e monitoramento
Nas últimas semanas, a ACRI pediu ao Supremo Tribunal que permita o acesso da Cruz Vermelha aos detentos palestinos, além de tentativa de responsabilizar a Prisons Service por suposta violação do mandato de setembro passado para melhoria das condições. No., diretor executivo Noa Sattath disse que pouco mudou desde a ordem judicial, citando falta de alimentação suficiente e ausência de exames médicos abrangentes.
O ministro da Segurança de Israel, Itamar Ben-Gvir, que passou a controlar as prisões após assumir o cargo, tem sido crítico das decisões judiciais que pressionam por melhorias. Em seus mandatos anteriores, estabelecimentos foram fechados para permitir que os detentos preparassem suas próprias refeições, em uma linha de ação que ele classificou como corte de “benefícios e indulgências”.
Contexto humanitário
O conflito em Gaza intensificou a crise de detentos, com milhares de pessoas detidas após os ataques de 7 de outubro de 2023 e durante a ofensiva israeleita na Faixa de Gaza. Organizações de direitos humanos relatam mortes de palestinos nas prisões desde o início da guerra, citando episódios de malnutrição.
O diário de Khawaireh, que voltou ao trabalho, indica que, mesmo após a libertação, a recuperação física é lenta. Ele relata ter, às vezes, economizado metade do pão diário para sentir-se satisfeito apenas no sábado, repetindo o desejo de sentir-se cheio, ainda que somente uma vez por semana.
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