- Dois rios na Califórnia, o Klamath e o Colorado, foram reconhecidos, respectivamente em 2019 e 2025, como pessoas com os mesmos direitos legais que pessoas, sob leis indígenas locais.
- O desenho da relação entre água e vinho reflete a visão indígena de respeitar a Terra; há crescimento de vinícolas de propriedade Māori na Nova Zelândia.
- A água domina a conversa global sobre vinho: nos novos mundos, oitenta e três por cento da área plantada é irrigada, enquanto no Velho Mundo esse percentual fica em dez por cento.
- O cultivo sem irrigação, ou dry farming, é apresentado como técnica antiga e atual para vinhedos mais resilientes à seca e com qualidade mais própria.
- O debate envolve quem decide quais plantações preservar, lembrando a França nas décadas de trinta e a morfologia das apelações europeias, que reduziram irrigação para proteger qualidade; há movimento para afrouxar restrições em várias regiões diante do clima. Exemplo: o Chardonnay Cameron, Dundee Hills, Willamette Valley, 2023, produzido com castas drygrown.
A discussão sobre vinho e uso da água ganha overtones éticos e legais, conectando práticas agrícolas a visões de mundo tradicionais. Duas bacias na Califórnia, Klamath e Colorado, foram reconhecidas como seres vivos com direitos semelhantes aos humanos por leis locais, em 2019 e 2025. Esse marco simboliza uma mudança global de percepção hídrica.
A tendência acompanha o aumento de produtores indígenas na região, incluindo vinícolas de propriedade Maori na Nova Zelândia. O reconhecimento de “pessoa jurídica” para corpos d’água reflete o respeito ancestral pela Terra e pela ecologia, enfatizando a ideia de consumir apenas o necessário.
A água domina a pauta mundial do vinho. Em estudo de 2019 encomendado pela ONU, argumenta-se que irrigação com água doce em culturas de alto custo não é viável, especialmente quando há 83% de área vinícola irrigada no Novo Mundo, frente a 10% no Velho Mundo.
No debate sobre produtividade hídrica, destaca-se a prática da agricultura sem irrigação, ou dry farming. Trata-se de um sistema que busca vinhas profundas, solos que retêm água e canopias equilibradas, visando resistência à seca, rendimentos estáveis e expressão do terroir.
Especialistas ouvidos apontam que dry farming, embora antiga, ganha relevância diante de mudanças climáticas. Lauren Pesch, consultora de Vinhedos em Napa, define a técnica como forma de cultivar plantas mais resilientes para fruit de qualidade consistente.
Experiências históricas citadas incluem o Douro, em Portugal, onde dry farming é usada há mais de 300 anos. Figuras do setor conservador, como Adrian Bridge, ressaltam que irrigação poderia diluir a qualidade de vinhos e ofuscar a identidade regional.
O debate também envolve questões econômicas e de gestão de recursos. John Paul, fundador da Deep Roots Coalition e enólogo, afirma que a irrigação é principalmente uma decisão de retorno financeiro, não de qualidade, e outros produtores endossam a visão de manter práticas tradicionais para preservar o caráter do vinho.
A tensão se estende à prática de políticas de irrigação e terroir. Randall Grahm, criador da Bonny Doon Vineyard, questiona quem decide quais plantações merecem preservação quando os recursos são limitados, refletindo uma disputa entre adaptação e preservação de plantações clássicas.
Historicamente, o sistema de Appellation na França, criado nas décadas de 1930, restringiu a irrigação para controlar rendimentos e manter qualidade, limitando o acesso a água para vinhedos AOC. Regulamentações semelhantes ainda influenciam muito do cenário europeu.
Com as mudanças atuais, regiões europeias relaxam restrições para enfrentar os impactos das mudanças climáticas, gerando um debate sobre adaptar a produção à terra ou moldar a terra às práticas de cultivo. O tema permanece central para a sustentabilidade do setor.
Caso emblemático de qualidade é o Cameron Dundee Hills Chardonnay de Willamette Valley, Oregon, colheita de 2023, produzido com uvas drygrown. O vinho destaca fruit limpa, acidez equilibrada e final mineral, refletindo a filosofia de cultivo sem irrigação.
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