- A comunidade de Jangada, em Brumadinho (Minas Gerais), obtém água de nascentes geridas por uma associação local desde antes da intervenção do estado.
- Em 25 de janeiro de 2019, ocorreu o rompimento da barragem de Córrego do Feijão, causando a morte de 272 pessoas e levando à suspensão de licenças de operação.
- A mina Jangada, ligada à Vale e à Itaminas, foi reaberta em 1º de agosto de 2025, a menos de 2 quilômetros das nascentes que abastecem a comunidade, sem consulta prévia.
- Críticos dizem que a expansão pode reduzir o lençol freático e colocar em risco o abastecimento de água da região; as comunidades reivindicam fechamento permanente das minas e revogação das licenças.
- Em 2025, organizações e familiares das vítimas organizaram protests e marchas para cobrar compensação e alertar sobre riscos associados à retomada das atividades na Jangada.
Brumadinho, MG — A água que abastece centenas de famílias da comunidade Jangada, no distrito rural de Casa Branca, vem de nascentes no próprio local. Em vídeo de dezembro passado, moradora local celebra que “a água é nossa”.
Há mais de três décadas, sem apoio do órgão estadual de água, a Copasa, os moradores criaram um sistema comunitário de captação e distribuição. Hoje, uma associação administra o sistema, destinando água para centenas de famílias da região.
Cátia Patrocinia Cruz Maia, professora da comunidade, integra a associação que gerencia o sistema de água. Ela relembra que antes havia apenas um riacho e que a demanda aumentou com o crescimento local. O esforço foi exclusivamente comunitário.
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Reabertura da mina Jangada
Porém, as águas da região convivem com a presença de Vale e de Itaminas. Em 25 de janeiro de 2019, houve o rompimento da barragem de rejeitos de Córrego do Feijão, em Brumadinho, um dos maiores desastres ambientais do Brasil, que deixou 272 mortos.
A mina Jangada, que fica no mesmo complexo do Paraopeba e a menos de 2 km das nascentes, teve a operação retomada em agosto de 2025. A empresa itaminas assumiu a operação, sob contrato com Vale, que mantém o direito de exploração.
A comunidade teme que a ampliação da área e da profundidade da mineração reduza o lençol freático, comprometa a água e coloque em risco o abastecimento local. Moradores e movimentos sociais protestam para manter as águas sob proteção.
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Licenças, estudos e pressão civil
O licenciamento ambiental de continuidade e expansão da Jangada foi concedido em 2018 pela Semad, o mesmo órgão que autorizou a continuidade da operação de Córrego do Feijão antes do rompimento. A licença, suspensa após a tragédia, foi restituída em 2025 e transferida para Itaminas.
Ativistas e familiares das vítimas realizaram marchas e denúncias desde o fim de janeiro, cobrando compensação e alertando para riscos de novas operações. Em reuniões com acionistas da Vale, lideranças apontam lacunas em informações hidrogeológicas e impactos no aquífero local.
Vale afirmou, por meio de carta, que as unidades operacionais e projetos seguem estudos hidrológicos detalhados para avaliar impactos nos afloramentos e na qualidade da água. A empresa também afirmou que nascentes próximas são identificadas, mapeadas e monitoradas ao longo do ciclo de vida da mineração.
Itaminas, por sua vez, ressaltou que a operação de Jangada pode trazer responsabilidades adicionais em estudos hidrogeológicos voltados a impactos sobre menores níveis de água subterrânea, vinculados ao modelo de operação do novo projeto.
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Desdobramentos e expectativa da comunidade
A atuação de Itaminas na área gerou preocupações locais, especialmente entre quem depende das nascentes para consumo e agricultura. Em 2025, organizações da sociedade civil e moradores encaminharam petição pedindo o fechamento permanente de Jangada e Córrego do Feijão, além da cassação da licença pelo governo federal.
A mobilização continua, com ações que buscam assegurar o acesso à água e evitar impactos adicionais aos recursos hídricos da região, especialmente em um território já marcado por episódios de dano ambiental dentre os mais graves do país.
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