- Denis Pennel diz não haver evidência concreta de que a IA vá destruir empregos; a transformação deve ser gradual e focada em tarefas, não na substituição de postos de trabalho.
- Demissões recentes atribuídas à IA refletem, na visão dele, ajustes do ciclo econômico, desaceleração e incerteza geopolítica, não ganhos diretos com automação.
- O impacto da IA tende a reorganizar funções dentro das empresas, com foco em atividades repetitivas e burocráticas, mantendo a importância da presença humana em setores como cuidados, educação e serviços.
- Desigualdades e exclusão digital são riscos imediatos; a UIT aponta que cerca de 2,2 bilhões de pessoas não tinham acesso à internet em 2025, enquanto 74% da população mundial já estava conectada.
- Cerca de 60% da força de trabalho atua na economia informal; solução sugerida é um sistema híbrido com proteção social básica e regras regulatórias mais flexíveis para facilitar a formalização e a participação no mercado.
A IA não deverá eliminar empregos de forma rápida, segundo o especialista Denis Pennel. Em entrevista à Bloomberg Línea, ele afirmou que não há evidência concreta de que a tecnologia esteja redesenhando o mercado de trabalho no ritmo sugerido por executivos e investidores. O comentárista participou da terceira Conferência Global do Mercado de Trabalho (GLMC), realizada em janeiro, em Riad, na Arábia Saudita.
Para Pennel, a transformação no mercado é real, mas o alcance e o tempo necessários ainda são incertos. O foco, segundo ele, está na mudança gradual de funções, não na destruição imediata de empregos. Ele aponta que demissões recentes em grandes empresas refletem mais o ciclo econômico, desaceleração global e incertezas geopolíticas do que ganhos diretos com automação.
O especialista destaca que muitas demissões não devem ser atribuídas unicamente à IA. Empresas continuam investindo alto, mas ainda não se sabe quais serão os resultados. O processo tende a reorganizar funções e tarefas, com maior produtividade, em vez de eliminar postos de trabalho de forma direta.
A automação, para Pennel, afeta principalmente atividades repetitivas, operacionais e burocráticas. Em setores como cuidado a idosos, educação e serviços, a presença humana permanece central. A tecnologia pode apoiar, mas não substituir por completo a relação humana.
Além do debate sobre empregos, Pennel alerta para riscos estruturais, sobretudo o aumento das desigualdades. Dados da UIT apontam que cerca de 2,2 bilhões de pessoas estavam sem acesso à internet em 2025, enquanto 6 bilhões já estavam conectadas, o equivalente a 74% da população mundial. A diferença tecnológica, segundo ele, pode criar uma nova divisão no mercado de trabalho entre quem tem acesso a recursos digitais e quem não tem.
A informalidade também figura entre os principais entraves. Estima-se que cerca de 60% da força de trabalho global atue na economia informal, somando mais de 2 bilhões de pessoas sem contratos formais. Pennel defende a construção de um sistema híbrido que ofereça uma proteção social mínima, mesmo para trabalhadores fora de contratos tradicionais, em vez de tentar uma formalização completa de imediato.
Sobre políticas públicas, o pesquisador pede regulação mais flexível para facilitar a transição para a formalidade e a adoção de uma variedade de arranjos contratuais, como trabalho temporário e programas de aprendizagem. A intenção é ampliar a participação no mercado formal, sem desencorajar contratações.
A perspectiva demográfica também é central. Assume-se que a população global possa encolher até o fim do século, com quedas significativas até 2100, o que tende a intensificar a luta por mão de obra ativa. Em cenários de menor oferta de trabalhadores, migrantes de países mais jovens podem desempenhar papel relevante para sustentar economias.
No conjunto, Pennel entende que o desafio não é apenas a velocidade da IA, mas a necessidade de respostas políticas para evitar que a tecnologia agrave desigualdades. A prioridade, afirmou, é evitar que o avanço tecnológico seja um gatilho de exclusões, mantendo a cooperação internacional em meio a tendências protecionistas e maior fragmentação geopolítica.
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