- A análise encomendada a um laboratório da Unicamp encontrou tirzepatida em canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai, mas não avaliou pureza, esterilidade ou contaminantes.
- Houve variação de concentração nas amostras: uma ficou 60% acima do informado e outras até 20% acima ou abaixo do valor do Mounjaro.
- Encontrar o princípio ativo não assegura segurança ou eficácia; peptídeos terapêuticos podem ter maior risco imunogênico e exigem estudos específicos de imunogenicidade.
- O registro no Paraguai não garante aprovação no Brasil; a Anvisa exige avaliação completa de qualidade, segurança, eficácia e conformidade para uso no país.
- Importar ou comercializar sem registro é crime no Brasil; a tirzepatida é protegida por patente da Eli Lilly até 2035, tornando ilegítima qualquer versão não autorizada.
O que acontece é que canetas emagrecedoras fabricadas no Paraguai, vendidas como versões de tirzepatida, passaram por análise laboratorial na Unicamp que confirmou a presença da molécula. No entanto, a simples detecção do princípio ativo não garante segurança ou eficácia. O estudo não avaliou pureza, esterilidade ou contaminantes.
Especialistas alertam que ver a molécula não equivale a aprovar o medicamento. Quem analisa costuma verificar ainda impurezas, processos de fabricação, estabilidade e reprodutibilidade entre lotes. Sem esse conjunto, o laudo não informa se o produto é seguro para uso.
Riscos e limitações da verificação
Peptídeos terapêuticos, como a tirzepatida, apresentam maior risco imunogênico do que moléculas pequenas. Variações no processo de fabricação podem gerar impurezas que provocam respostas imunes. Assim, anticorpos antifármaco podem neutralizar o efeito ou causar reações adversas.
A leitura de bancada não descarta esse risco. Agências reguladoras exigem estudos de imunogenicidade para aprovar um medicamento. A variação de concentração observada em amostras paraguaias já é um indicativo de que a identidade molecular não garante dose consistente.
Processo de fabricação e variações
Produzir um peptídeo injetável estéril em escala industrial envolve parâmetros críticos como concentração, pH, armazenamento e esterilidade. Uma das amostras apresentou 60% acima do informado pelo fabricante e outras variaram até 20% em relação ao Mounjaro, o medicamento de referência.
Para medicamentos industrializados, a faixa permitida entre teor declarado e real fica entre 95% e 110% na liberação de lote, estreitando-se até 90% a 110% no prazo de validade. Em preparações manipuladas, a norma brasileira admite 90% a 110%. Variação de 20% não é aceitável.
Registro no Paraguai e proteção ao paciente brasileiro
As canetas têm registro na Dinavisa, órgão sanitário do Paraguai, mas esse registro não implica reconhecimento automático no Brasil. A Anvisa exige avaliação completa em cinco eixos: qualidade farmacêutica, segurança, eficácia, equivalência terapêutica e conformidade regulatória. A filiação brasileira ao PIC/S reforça o rigor regulatório aplicado.
Em 2026, a Anvisa autorizou Ozivy, primeira caneta de semaglutida sintética no Brasil, após quase três anos de análise. A agência aponta que avalia análogos sintéticos com cuidado, mantendo o protocolo de evidência robusto.
O que já foi feito no Brasil
Desde o fim de 2025, a Anvisa vem retirando do mercado marcas de tirzepatida e retatrutida do Paraguai: Synedica, T.G. Indufar, Tirzec, Lipoless, Lipoland, T.G. da Landerlan, Gluconex e Tirzedral. A medida, por meio da Resolução-RE nº 1.519/2026, proíbe venda, distribuição, importação e uso dessas canetas.
A importação ou venda sem registro pode caracterizar crime conforme o Código Penal, com pena de 10 a 15 anos. A patente da tirzepatida no Brasil pertence à Eli Lilly até 2035, o que também sustenta a irregularidade dessas versões.
Implicações para quem já utilizou ou pensa em usar
Encontrar tirzepatida em uma amostra não garante segurança, eficácia ou equivalência ao produto original. Sem registro, não há garantia de pureza ou dosagem correta, e o paciente assume riscos legais e de saúde. O caminho seguro permanece com acompanhamento médico e medicamentos devidamente registrados no Brasil.
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