- O diretor vencedor do Tony, John Doyle, afirmou que avisos de conteúdo antes de peças podem aprisionar o público e sanitizar o teatro.
- Ele defende que o teatro deve provocar desconforto e questionar o público, não deixá-lo “limpo” ou inapto a encarar temas difíceis.
- Doyle cita Shakespeare e tragédias gregas como exemplos de obras que exploram o lado sombrio da condição humana, e critica o excesso de prevenção.
- A discussão ganhou atualidade após a Royal Shakespeare Company incluir avisos de conteúdo na montagem de Hamlet, alertando para cenas de natureza adulta e luto.
- O diretor também critica os altos custos de produção, dizendo que o orçamento elevado impede experimentações, e defende volta a narrativas diretas e acessíveis.
John Doyle, diretor de teatro premiado com o Tony, criticou a prática de incluir avisos de gatilho antes de peças, afirmando que isso pode levar a uma censura suave do conteúdo e tornar o palco menos desafiador. Em entrevista exclusiva, ele disse que o objetivo da dramaturgia é provocar desconforto e reflexão, não tornar tudo agradável.
O diretor escocês, que dirigiu quatro teatros britânicos, destacou que o trabalho teatral deve expor o público a temas sombrios da condição humana. Segundo ele, Shakespeare abordou incesto, assassinato e regicídio para provocar olhar para a própria escuridão interior, e evitar esse choque seria perder o sentido da obra.
Doyle ainda contou a uma plateia de estudantes que já houve resistência a avisos de conteúdo, lembrando de uma passagem em que uma aluna reagiu negativamente a Miss Julie de Strindberg. Ele afirmou que o objetivo da peça é justamente provocar esse desconforto, não antecipá-lo.
O tema dos avisos ganhou repercussão quando a Royal Shakespeare Company anunciou notas de conteúdo para Hamlet em turnê, alertando para cenas de natureza adulta, morte e luto. Em outros setores, atores veteranos já foram cautelosos quanto a esse tipo de alerta antes de presenças de público.
Doyle também refletiu sobre o custo de montagem de peças, dizendo que o financiamento no teatro tornou-se um risco extremo e que poucas empresas têm retorno financeiro. Segundo ele, produtores e diretores temem desencorajar o público com mensagens de que a apresentação possa ser perturbadora.
No campo da carreira, Doyle é lembrado por montagens que reduziram recursos sem perder intensidade, como Sweeney Todd e Fiddler on the Roof. Seu novo livro, Opening Doors: Reimagining the American Musical, traça meio século de trajetória teatral iniciada em Inverness, na casa de uma família com poucos recursos.
O autor também aborda a falta de inclusão cultural no setor, citando o alto custo do ingresso como empecilho. Ele defende um retorno ao storytelling honesto no palco, sem depender de efeitos tecnológicos dispendiosos que afastem o controle criativo do artista.
Além da crítica aos avisos, Doyle reconhece que o custo elevado é um dos principais entraves para ampliar o acesso ao teatro. Ele ressalta a necessidade de equilibrar qualidade cênica com sustentabilidade econômica, para manter o teatro acessível sem recorrer a formatos excessivos.
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