- A autora viajou pela África conversando com mulheres para entender como rituais ancestrais podem ajudar a encontrar prazer e liberdade sexual, tema do novo livro Seeking Sexual Freedom.
- Em Dar es Salaam, na Tanzânia, ela participa de aulas com Zaishanga, denominada somo ou kungwi, que ensinam dança, aconselham sobre casamento e autocuidado em encontros comunitários chamados kitchen parties.
- A ideia de sankofa, “voltar e pegar o que é nosso”, é usada pela autora para resgatar rituais pré-coloniais com foco feminista, chamada de “feminist sankofa”.
- No Ghana, ela observa o dipo, rito de passagem Krobo, com desfile de jovens, colares de contas coloridas e lições de convivência e técnicas domésticas, associadas a significados de pureza, maturidade e valor.
- A reportagem defende educação sexual aberta e a valorização do prazer como direito de todas as pessoas, sugerindo que tradições podem ser reinterpretadas para apoiar identidades de gênero e orientações sexuais variadas.
A autora Nana Darkoa Sekyiamah viajou pela África para investigar como saberes ancestrais podem orientar a sexualidade feminina hoje. Seu estudo baseia-se em relatos de mulheres, rituais de passagem e práticas tradicionais reinterpretadas sob uma lente feminista. O resultado aparece no livro Seeking Sexual Freedom: African Rites, Rituals and Sankofa in the Bedroom.
Em Dar es Salaam, na Tanzânia, a autora acompanhou Zaishanga, conhecida como Auntie Zai, professora rural de educação sexual. Zaishanga realiza encontros chamados “kitchen parties”, onde transmite conselhos sobre sedução, marriage saudável, autocuidado e padrões de beleza. Os encontros reúnem mulheres experientes que orientam futuras noivas, fundamentados em ritos de passagem.
Segundo o relato, esses encontros representam prática contemporânea de tradições que remontam a séculos, mas com ajustes modernos. Zaishanga cobra ingresso de 5 mil shillings, valor próximo a um pouco menos de £1,50, e afirma ter preservado famílias através de sua atuação como somo ou kungwi, título de educadora tradicional de sexualidade.
A autora descreve também a percepção de que muitos aspectos dessas tradições foram moldados pelo colonialismo e pela modernidade, levando a uma versão mais contida e ocidentalizada. Ela aponta que a essência dessas práticas ainda pode oferecer espaço para diálogo sobre corpo, desejo e autonomia feminina.
Entre as experiências compartilhadas, a jornalista destaca o dipo, rito de passagem Krobo em Gana, celebrado em Krobo Odumase. Jovens mulheres desfilam com cabeças raspadas e colares de contas, sinalizando diferentes significados conforme as cores. A cerimônia envolve desde o vestuário até tarefas comunitárias aprendidas durante o período de iniciação.
Especialistas entrevistados sugerem que, apesar da aparência conservadora de alguns rituais, eles criam espaços para aprender sobre corpos e prazer. Pesquisadores destacam a função de pertencimento e a construção de uma identidade coletiva entre mulheres que passam por esses ritos.
O livro de Sekyiamah traz ainda visões de jovens e pessoas que se identificam fora do padrão heteronormativo, defendendo o uso de tradições para afirmar identidades de gênero e orientação sexual. Trechos destacados nessa abordagem incluem relatos de personas que reconhecem a ancestralidade como parte de suas escolhas identitárias.
A autora aponta objetivos futuros, como a criação de um ritual de puberdade feminista para jovens, com foco no prazer como bem-estar e não como ferramenta de atrair ou manter parceiros. O trabalho propõe uma educação sexual aberta, inclusiva e fundamentada em práticas culturais africanas.
Segundo a editora, Seeking Sexual Freedom será lançado no Reino Unido em 12 de março e, nos Estados Unidos, em 5 de março. O livro compila relatos de mulheres de diferentes idades, identidades de gênero e orientações sexuais, buscando ampliar o diálogo sobre prazer e autonomia no continente africano.
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