- Ensaio fase II avaliou DMT sintético (desenvolvido pela Small Pharma, hoje Cybin UK) em depressão, com 17 pacientes recebendo DMT e 17 recebendo placebo, todos com suporte psicoterapêutico.
- Duas semanas após a injeção, quem recebeu DMT apresentou maior redução dos sintomas depressivos do que o grupo placebo.
- Os terapeutas tiveram papel central na preparação, compreensão e integração da experiência, embora o estudo seja pequeno e preliminar.
- A formulação sintética de DMT gera uma experiência psicótica de cerca de 30 minutos e não causa vômito, diferente do ayahuasca tradicional.
- Especialistas destacam que, apesar do potencial, há entraves regulatórios e logísticos, e a terapia precisa ser administrada em clínica com injeção e acompanhamento terapêutico.
A fase II de um estudo clínico avaliou o uso de DMT, componente psicoativo da ayahuasca, como possível terapia para depressão. A pesquisa foi patrocinada e desenhada pela Small Pharma, hoje chamada Cybin UK, e liderada pelo psiquiatra e neurocientista Dr. David Erritzoe, do Imperial College London. Os resultados foram publicados na revista Nature nesta mês.
Participaram do estudo 34 voluntários, distribuídos em dois grupos: 17 receberam uma dose de DMT sintético e 17, placebo. Todos receberam suporte psicoterapêutico durante o experimento. Duas semanas após a aplicação, o grupo que recebeu DMT mostrou maior redução dos sintomas depressivos em comparação ao grupo placebo.
Tommaso Barba, PhD candidato do Imperial College London e um dos autores, destacou o papel dos terapeutas na preparação, condução da experiência e integração dos aprendizados após o tratamento. Ele alertou que o estudo é pequeno e preliminar, apontando que ainda há caminhos a seguir.
Contexto e comparação com ayahuasca tradicional
Na ayahuasca tradicional, a bebida contém plantas com componentes psicoativos e enzimas que afetam o processamento dessas substâncias, muitas vezes provocando náusea e vômito. A formulação de DMT usada no estudo produz uma experiência mais curta, de cerca de 30 minutos, sem induzir vômitos.
Especialista da Universidade de Melbourne aponta que o vômito na ayahuasca pode ter efeitos catárticos para alguns pacientes, mas não há evidência clara de benefício adicional em relação ao desfecho terapêutico global quando comparado ao uso sem esse componente.
Perspectivas regulatórias e terapias afins
A FDA aprovou, em 2019, o Spravato, spray nasal à base de ketamina, como tratamento para depressão resistente, marcando o interesse regulatório em terapias assistidas por psychedélicos. Ensaios com psilocibina e MDMA também estão em andamento, com questões éticas e de confiabilidade de dados variando entre substâncias.
Perkins ressaltou que fármacos como psilocibina e DMT podem ter benefícios terapêuticos fora de ambientes clínicos, em comparação com MDMA, cuja evidência é menos sólida para saúde mental, além de poder provocar desejos de toque que podem complicar a relação terapeuta-paciente.
Desafios e próximos passos
Barba enfatizou que, apesar do potencial, a terapia com psychedélicos exige clínica especializada, administração controlada e acompanhamento psicoterapêutico. Mesmo com resultados promissores, a abordagem completa envolve mudanças motivacionais e, por vezes, decisões difíceis ao longo do tempo.
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