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Comunidades afetadas por mina peruana dizem ter sido esquecidas por décadas

Cerro de Pasco convive há décadas com contaminação por metais pesados; autoridades e a mineradora são criticadas pela falta de proteção à população

CERRO DE PASCO, Peru — The open-cast crater seems ready to swallow the city whole. Mud-brick houses with corrugated iron roofs teeter on the edge of the massive Raúl Rojas mining pit, now lined with razor wire, which stretches nearly 2 kilometers (1.2 miles) across and is 300 meters, or more than a quarter of a mile, deep. This is the center of Cerro de Pasco, a city in central Peru, sitting at an elevation of more than 4,300 m (14,100 feet) above sea level.
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  • Cerro de Pasco, no Peru, fica ao lado da enorme pirita a céu aberto Raúl Rojas, com cidade cercada por um poço de mineração de quase dois quilômetros de largura e mais de trezentos metros de profundidade.
  • Em 2022, um relatório das Nações Unidas classificou a região como uma “zona de sacrifício”, com metais pesados elevadíssimos que afetam a saúde além dos trabalhadores; a mineração representa cerca de dez por cento do PIB do Peru e exportações de setenta e sete bilhões de dólares em dois mil e vinte e dois.
  • Estudos da ONG Source International mostram níveis extremamente altos de chumbo, arsenico, mercúrio e cadmio na água, no solo e no ar; rios como Quiulacocha e Ragra estão contaminados e a barragem de rejeitos corre o risco de transbordar.
  • O impacto na saúde infantil é rápido: em Paragsha, o chumbo em cabelos de oitenta e duas crianças ficou quarenta e três vezes acima do permitido; o quociente intelectual médio de crianças locais é menor que o de cidades vizinhas; autoridades de saúde são apontadas como pouco ativas.
  • Grupos locais e organizações não governamentais exigem responsabilização, enquanto a atuação do governo permanece irregular; a Volcan Compañía Minera S.A.A. (com participação da Glencore) não se pronunciou, e medidas decisivas ainda não foram implementadas.

O Cerro de Pasco, no centro do Peru, vive cercado por uma cratera a céu aberto que domina a cidade. O pit Raúl Rojas, de quase 2 km de largura e mais de 300 m de profundidade, é cercado por casas de adobe e telhas de zinco. A área funciona desde o início do século XX e continua a exercer forte influência sobre a comunidade.

Mais do que a monumental área de extração, o que preocupa é a contaminação persistente pelo metal pesado. Cerca de 80 mil moradores enfrentam impactos de longo prazo nas vias respiratórias, no desenvolvimento infantil e na saúde geral, conforme observam especialistas.

História contaminada

Em 2022, a ONU classificou Cerro de Pasco como uma das quatro “zonas de sacrifício” na região, descrevendo a cidade como uma área de mineração aberta associada a elevações de metais pesados. A avaliação destacou riscos para a saúde pública e o meio ambiente.

Em nível global, o relatório citado aponta que cerca de 9 milhões de pessoas morrem todo ano por contaminação associada à mineração. No Peru, a mineração representa aproximadamente 10% do PIB, com exportações de 66 bilhões de dólares em 2022.

História de maior escala

A região tem uma longa história de extração, que remonta ao período colonial, com a extração de prata, chumbo e zinco impulsionando a economia local. A Raúl Rojas passou por mudanças de operação; em 1999 a dívida de operações foi transferida para Volcan Compañía Minera S.A.A., atual líder na produção de zinco e prata no país.

A Volcan, com participação relevante do grupo Glencore, opera diversas unidades e plantas na região. Em 2013, a extração na Raúl Rojas foi interrompida e relatos indicam retomada parcial em 2018, com atividade concentrada na margem sul.

Contaminação persistente

Desde 2009, a ONG Source International monitora amostras de água, solo e rios da região. Estudos revelam concentrações elevadas de chumbo, arsênico, mercúrio e cádmio na água, no solo e em áreas públicas frequentadas por crianças. Os resultados superam constantemente os limites permitidos.

As águas do Rio Ragra, por exemplo, apresentam manganês até 350 vezes acima do permitido, com impactos que seguem para a bacia do San Juan e o Lago Junín, preservando um ecossistema endêmico. O reservatório de água residual Yanamate também figura entre os pontos críticos.

Riscos à saúde infantil

Estudos apontam efeitos graves em crianças expostas a metais pesados. Em Paragsha, amostras de cabelo de 82 crianças mostram chumbo 43 vezes acima do permitido, enquanto ferro e alumínio ficam bem acima dos limites. O IQ médio de crianças da região está entre 82,5, abaixo de áreas não impactadas.

Médicos locais e pesquisadores destacam sinais de intoxicação por chumbo, como sangramentos nasais frequentes. A saúde infantil é acompanhada por dificuldades de aprendizagem, atraso no desenvolvimento e problemas neurológicos.

Desafios da água e da alimentação

Parcerias locais relatam água não potável em escolas e áreas públicas próximas a obras de mineração. Filtragem improvisada e uso de água engarrafada tornaram-se práticas comuns para reduzir riscos de contaminação. No entanto, a qualidade do recurso permanece insuficiente em muitos bairros.

Áreas de lazer próximas às minas também concentram metais acima dos níveis seguros, elevando o risco de exposição durante atividades físicas de crianças. Playgrounds e campos esportivos de Cerro de Pasco apresentam concentrações de chumbo e outros metais acima de referências da região.

Responsabilidade e ações públicas

As autoridades históricamente adotaram medidas de saúde pública de forma descontínua. Ações em 2015, 2017 e 2018 estabeleceram campanhas de saúde e planos de monitoramento, mas a implementação tem enfrentado oscilações devido a mudanças de governo e fragilidades institucionais.

A OEFA, agência ambiental, aponta que não houve planos de fechamento de algumas áreas de contenção de resíduos com a devida aprovação regulatória, o que aumenta o risco de vazamento e contaminação adicional. Entre 2018 e 2023, a Volcan recebeu multas significativas por violações ambientais.

Vozes da comunidade

Lourdes Mendoza, moradora de Cerro de Pasco, vive como mãe solteira com três filhos. Ela relata dificuldades de acesso a tratamento médico adequado e aponta para a sensação de abandono por parte das autoridades. A família depende de salários baixos e de redes de apoio locais.

Carolina Caqui Calixto, vereadora regional, afirma que a população de Paragsha e outras áreas sofre com a passividade oficial e a falta de responsabilidade social das mineradoras. Ela defende ações urgentes do governo central para proteger crianças e comunidades.

O que se sabe hoje

Relatórios de pesquisa destacam que as crianças da região apresentam sinais de intoxicação por metais e déficits de desenvolvimento. Projetos de monitoramento e planos de remediação apontam para a necessidade de ações consistentes e de longo prazo, com supervisão efetiva das autoridades.

O caso de Cerro de Pasco é apresentado por pesquisadores como exemplo de como atividades extrativas podem impor custos de saúde pública que ultrapassam o ciclo econômico da mineração. A prioridade, segundo especialistas, é estabelecer políticas claras de prevenção, monitoramento e reparação.

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