- A pintura Mors Imperator, de Hermione von Preuschen, foi alvo de escândalo em 1887 por temer que zombasse o Kaiser alemão Wilhelm I.
- Mais de um século depois, a obra volta a Berlin e fica em exibição no Alte Nationalgalerie, de domingo até meados de novembro.
- A tela representa a morte como governante, com um esqueleto de capa, coro de ferro e posição dramática sobre um globo, derrubando um trono.
- Originalmente pretendia compor um ciclo de dez pinturas sobre vida, morte e amor; a segunda peça, Regina Vitae, não foi concluída a tempo.
- A obra foi rejeitada pela academia por motivos de mérito artístico; a autora chegou a expor o quadro de forma independente para provocar debate público.
Mors Imperator, pintura simbólica de Hermione von Preuschen, causou escândalo no fim do século XIX ao ser recusada pela Berlin Academy. A obra, de 1887, mostra uma caveira envolta em manto com pelagem de arminho, segurando um globo e derrubando um trono, em uma alegoria sobre a transitoriedade do poder. A rejeição ocorreu sob o pretexto de valor artístico, na época em que o Kaiser Wilhelm I completava 90 anos.
Mais de um século depois, a peça retorna a Berlim. A partir deste domingo e até meados de novembro, a pintura de 2,5 metros por 1,3 metro fica em exposição em uma instituição estatal no Alte Nationalgalerie. O retorno marca a reconstituição de uma crise museológica que reverbera sobre a relação entre arte e poder.
Segundo a curadoria da mostra, não houve intenção deliberada de zombar da monarquia, nem a interpretação de que o esqueleto representaria Wilhelm I. Pesquisas apontam que o brasão na cadeira e a coroa não correspondem a símbolos reais da Casa de Hohenzollern, reforçando o caráter alegórico da composição.
Hermione von Preuschen, nascida em Darmstadt em 1854, era poeta, viajante e pintora conhecida por grandes naturezas-mortas históricas. Em Berlim, em 1896, participou de um congresso internacional de mulheres, defendendo o acesso feminino à educação em academias de arte. A obra em questão havia sido planejada para um ciclo de dez telas sobre vida, morte e amor, com uma segunda obra chamada Regina Vitae que não foi concluída a tempo.
A rejeição gerou resposta pública da artista, que publicou carta na imprensa e organizou uma exibição privada em uma loja de Leipziger Strasse, cobrando ingresso equivalente a oito euros atuais. A mostra ganhou notoriedade e elevou a fama de Von Preuschen, mesmo sem apoio institucional na época. Em 1892, Mors Imperator foi vendida a um empresário suíço.
Após a morte de Von Preuschen em 1918, as obras remanescentes foram doadas pelas filhas a um museu local em Berlim. Em 2013, uma retrospectiva restaurou a atenção à artista, incluindo uma cópia da pintura envolvida no escândalo. A tela foi emprestada ao Alte Nationalgalerie para a exposição atual, apresentando-se como símbolo da relação entre arte, autoridade e recepção pública.
A curadora Birgit Verwiebe observa que a peça diverge da leitura de um ataque direto à monarquia e ressalta o caráter pessoal e emocional da autora. A obra permanece como referência histórica sobre um choque entre criação artística e censura institucional, ilustrando como autoridades podem interpretar símbolos de modo diferente do intencionado pelo artista.
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