- Pesquisadores franceses de conservação desenvolvem um modelo de IA para prever o impacto das mudanças climáticas no patrimônio cultural, usando dados climáticos, de materiais e imagens.
- O projeto, que pretende tornar a metodologia open-source, envolve três sítios na França e será acessível pelo site Espadon, mantido pelo Ministério da Cultura.
- A ferramenta utiliza aprendizado multimodal para processar fotografias, áudio e dados como temperatura, umidade e dióxido de carbono, buscando correlacionar informações e prever deterioração.
- Desafios identificados: escala entre clima global e microclima local; falta de padronização entre diferentes dispositivos de medição; necessidade de uma taxonomia precisa para descrever degradação.
- O objetivo é permitir visualização de como os sítios devem mudar ao longo do tempo devido ao clima, funcionando também como ferramenta educativa e de conservação.
Institutos públicos e privados na França estão desenvolvendo uma inteligência artificial capaz de prever como as mudanças climáticas afetam o patrimônio cultural. A ferramenta visa quantificar impactos e orientar restaurações e estudos arqueológicos.
A pesquisadora Ann Bourgès, da Centre for Research and Restoration of France’s Museums, explica que a iniciativa nasceu em conversas com a Comissão Europeia há quatro anos. O objetivo é medir de modo preciso a deterioração causada pelo clima ao longo de décadas.
Em 2022, Bourgès e dois pesquisadores iniciaram dois projetos de doutorado e recrutaram Adèle Cormier e David Roqui, no último ano de seus PhDs. O objetivo é monitorar três sítios franceses e treinar IA para correlacionar dados meteorológicos, de materiais e de deterioração.
Metodologia aberta
Cormier dedicou dois anos a coletar dados climáticos e de deterioração em dois locais. O primeiro é a base octogonal de arenito na torre da catedral de Strasbourg, em Rayonnant Gothic. O segundo fica no sítio arqueológico de Bibracte, perto de Autun, na Borgonha.
Roqui trabalha com aprendizagem multimodal para ensinar a IA a processar imagens, áudio e outras informações. A ideia é que a IA reconheça fissuras em imagens e acompanhe a evolução ao longo do tempo.
Dois desafios principais foram identificados. Primeiro, o problema de escala: o clima é global, mas o microclima de cada sítio requer detalhamento. Segundo, a necessidade de relacionar dados de fontes distintas e com padrões de medição diferentes.
Plataforma e uso futuro
A equipe adotou imagens infravermelhas diretas para detectar infiltrações de água e salitre. O objetivo é transformar a experiência em dados acessíveis por meio do hub digital Espadon, mantido pelo Ministério da Cultura, que visa digitalizar o patrimônio com realidade aumentada.
Bourgès destaca que a ferramenta poderá permitir visualizar as alterações de um sítio específico ao longo do tempo, com base no clima local. O projeto é visto também como instrumento pedagógico para comunicar o alcance da crise climática.
A coordenadora ressalta que o interesse é amplo, englobando conservadores, arqueólogos e gestores culturais. O governo francês já tem um plano nacional para monitorar impactos do clima, mas ainda não com a granularidade trazida pela pesquisa em desenvolvimento.
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