- A expressão “coesão social” perdeu o tom otimista na Austrália, especialmente após o ataque de Bondi que evidenciou o antissemitismo e a fragilidade da convivência.
- A visão de que a coesão envolve apenas democracia e Estado de direito é contestada; é preciso ir além do combate ao antissemitismo para enfrentar questões mais profundas.
- Dados indicam desigualdades: menos de metade se sente pertencente, com jovens, imigrantes recentes e pessoas em dificuldade econômica entre os menos conectados.
- Ao longo de décadas, políticas de multiculturalismo foram enfraquecidas: educação segregada, moradia e empregos desproporcionais, e ausência de uma lei nacional de direitos humanos.
- A ministra Anne Aly propõe reimaginar o multiculturalismo para promover pertencimento real, igualdade de oportunidades e tratamento justo para todos.
O conceito de coesão social perdeu o tom otimista e a sensação de pertencimento. Em meio a um mundo turbulento, a ideia permanece ambígua, suscetível a interpretações diferentes conforme o público.
O debate ganhou força após o ataque a Bondi, no ano passado, quando pessoas judias celebravam Hanucá. O episódio elevou a coesão social a uma prioridade pública e mostrou como o antissemitismo ainda delimita o entendimento de convivência.
Para muitos australianos, a coesão social deixou de soar como uma promessa compartilhada. O termo passou a soar como consenso forçado ou conformidade social, sem um plano de ação claro voltado ao “fair go” previsto pela tradição nacional.
Especialistas apontam que a ansiedade coletiva, a polarização e a violência global ajudam a corroer a empatia. Há quem acentue a necessidade de lideranças emocionalmente inteligentes para reverter esse quadro, promovendo diálogo respeitoso.
No entanto, nas últimas duas décadas não houve desmontagem da arquitetura social que mostrou avanços. Reconhecimento dos povos originários estagnou, educação ficou mais cara e vias de mobilidade social aparecem cada vez mais limitadas.
Além disso, políticas públicas não aceleraram mudanças estruturais, como a ausência de uma lei nacional de direitos humanos e de uma estratégia antirracista abrangente. A assistência pública permanece insuficiente para reduzir a pobreza.
Em uma visão institucional, a comissão real sobre coesão social define o tema como um consenso nacional em defesa da democracia, liberdade e Estado de direito. Muitos críticos entendem que isso não basta para o desafio global.
O medo está mais presente hoje. Escolas, sinagogas e mesquitas demandam proteção, e imagens de protestos são contidas por forças de segurança. Redes sociais ampliam suspeitas e hostilidade entre diferentes comunidades.
Apesar de o país continuar entre os mais diversos do mundo, a sensação de pertencimento diminuiu desde a pandemia. Conspiratórias e discursos de ódio ganharam força, alimentando um ambiente de desconfiança.
Relatos históricos lembram que houve um período de forte apoio bipartidário à multiculturalidade, entre 1973 e 1996. Hoje, esse consenso parece amenizar, mas não sustenta uma construção estável de identidade nacional.
A atual discussão sobre identidade envolve o chamado multiculturalismo ativo. Em 2025, a ministra Anne Aly lançou críticas a uma versão condicionada de acolhimento, defendendo participação cívica plena sem tarifas de aceitação social.
Em meio ao debate, o trágico ataque de Bondi acentuou a necessidade de lidar com a diversidade de forma prática: reconhecer habilidades, oferecer oportunidades e ampliar a representação, sem reduzir pessoas a estereótipos.
Pensar em uma nação que valorize a participação cívica exige reformas institucionais profundas. É preciso repensar escolas, políticas de moradia, saúde e inclusão para criar condições de pertencimento real.
O caminho proposto passa por revisitar a história, reconhecer falhas e promover políticas que incentivem participação, equidade e dignidade para todos. Sem esse esforço, vozes de exclusão tendem a ganhar espaço.
A reflexão pública indica que justiça, diálogo e respeito às diferenças são elementos centrais. Construir vínculos sociais não é apenas discurso, mas prática institucional diária, com metas claras e avaliáveis.
Em síntese, a coesão social exige ações concretas que vão além de símbolos. Instituições precisam oferecer oportunidades, proteção e participação efetiva para quem vive à margem, buscando uma convivência mais justa.
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