- Estudo da Universidade Federal do Ceará, vinculada ao Ministério da Educação, aponta que a falta de leite de vaca e a não utilização de antiparasitários são os principais fatores da tripla carga da má nutrição em famílias do Ceará, afetando 1 em cada 25.
- A pesquisa, com 3,2 mil pares mãe e filho em 2023, usa dados da Pesmic e estabelece uma linha de base inédita no Brasil, publicada no Journal of Health, Population and Nutrition.
- Crianças que não consomem leite têm mais do que o dobro de probabilidade de estar na tripla carga; a ausência de antiparasitários eleva o risco quase 2,5 vezes.
- Fatores de vulnerabilidade incluem idade da criança (bebês até seis meses têm quase quatro vezes mais chance; de seis a onze meses, cinco vezes) e tamanho da família (mais de três pessoas na casa aumenta 60%; quatro ou mais filhos, o risco sobe para acima do dobro).
- Educação infantil ausente, consumo de ultraprocessados e tabagismo materno aumentam a incidência, com consequências como desnutrição, anemia e obesidade materna.
A Universidade Federal do Ceará (UFC), ligada ao MEC, realizou um estudo inédito no Brasil sobre a chamada tripla carga da má nutrição (TCMN) em famílias do Ceará. A pesquisa aponta a falta de leite de vaca e a ausência de antiparasitários como principais fatores de risco. O estudo analisou 3,2 mil pares de mãe e filho em 2023, com dados da Pesmic, série histórica mundial de saúde materno-infantil.
O levantamento identificou que uma em cada 25 famílias no estado convive com TCMN, definida pela presença simultânea de desnutrição infantil, anemia em crianças e sobrepeso ou obesidade materna. Os resultados foram publicados em revista internacional de saúde populacional, estabelecendo uma linha de base inédita no Brasil.
Segundo a pesquisadora Sabrina Rocha, o estudo mostra como desnutrição e obesidade, geralmente estudadas isoladamente, coexistem no microambiente familiar. A análise ressalta o impacto de fatores nutricionais e ambientais na dinâmica entre mães e filhos.
Peso do leite e antiparasitários
Os dados mostram que crianças que não consomem leite de vaca têm mais que o dobro de probabilidade de entrar na TCMN, em comparação com quem consome. A ausência da bebida priva a criança de proteínas e cálcio essenciais.
Paralelamente, menores que nunca tomaram anti-helmínticos apresentam risco quase 2,5 vezes maior de TCMN. A falta de medicação favorece infecções parasitárias, prejudicando a absorção de nutrientes e provocando diarreia.
Idade e tamanho da família
A idade das crianças é fator relevante. Bebês com menos de seis meses têm quase quatro vezes mais chances de TCMN do que crianças de 24 a 71 meses. Entre 6 e 11 meses, a probabilidade é cinco vezes maior.
A configuração familiar também influencia. Famílias com mais de três pessoas na casa apresentam 60% mais chance de registrar TCMN. Em lares com quatro filhos ou mais, o risco salta para o dobro.
Ambiente escolar, ultraprocessados e tabagismo
A ausência de educação infantil é outro agravante relevante. Famílias cujas crianças não frequentam creches têm incidência da TCMN mais de três vezes maior. A falta de creches reduz renda familiar e acesso a alimentos nutritivos.
O estudo associa consumo de ultraprocessados a obesidade e deficiência de micronutrientes. O professor Hermano Rocha destaca a insegurança alimentar no estado e a necessidade de políticas para restringir ultraprocessados em ambientes escolares.
O tabagismo é apontado como fator de risco: mães que fumam têm o dobro de probabilidade de registrar TCMN na família, possivelmente refletindo risco comportamental e menor acesso a informações de saúde.
Consequências da TCMN
A tripla carga gera impactos profundos. Desnutrição infantil aumenta risco de pneumonias, infecções e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. A anemia crônica complica funções neurológicas e cognitivas. A obesidade materna eleva chances de diabetes, problemas articulares e alguns tipos de câncer.
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