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Rede de recrutamento africano da Rússia se expande

Recrutamento russo de kenianos gera mortes e prisões; governos enfrentam falhas regulatórias e repatriação incompleta

Relatives of Kenyan nationals conscripted by the Russian army pose with photos of their family members during a demonstration demanding government action to repatriate their kin, seen in Nairobi on Feb. 19.
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  • A África tem visto redes de recrutamento ligando Kenia a Moscou, com promessas de empregos no exterior que acabam levando jovens à guerra na Ucrânia; o caso de Clinton Nyapara Mogesa, que foi para Moscou, recebeu treino militar e foi morto na frente leste, é exemplo recente.
  • A inteligência militar ucraniana afirma que Mogesa carregava passaportes de dois outros kenianos na época da morte, indicando recrutamentos similares para futuras operações.
  • Segundo a National Intelligence Service do Quênia, mais de mil quenianos foram recrutados para lutar na Rússia, com dezenas hospitalizados, dezenas repatriados e vários cidadãos ainda em combate ou desaparecidos.
  • O recrutamento ocorre por meio de agências locais, informais ou registradas, que prometem salários de cerca de 2.700 dólares por mês, bônus de assinatura e, em alguns casos, cidadania rápida; muitos acreditam estar indo trabalhar em funções civis, não militares.
  • O governo queniano vem atuando com prisões, congelamento de bens e restrições de viagem a recrutadores, além de buscar repatriação e apoiar famílias, embora reconheça a dificuldade de interromper completamente a prática.

O caso de recrutamento na Rússia ganha novo capítulo com a história de Clintom Nyapara Mogesa, um queniano que partiu de Qatar para Moscou em outubro de 2025 em busca de emprego, sem esclarecer o tipo de trabalho. Dois dias após chegar, ele informou ao irmão que começaria treinamento militar, e semanas depois afirmou que seria enviado ao front. As ligações cessaram em seguida.

As informações indicaram que Mogesa acabaria morto na frente leste da Ucrânia, com confirmação dos serviços de inteligência militar ucranianos meses após o ocorrido. Fotos divulgadas pelo governo ucraniano mostram o rapaz em posição de combate, vinculadas a outros cidadãos kenianos usados como potenciais recrutados em circunstâncias semelhantes.

A história de Mogesa é parte de um padrão regional, segundo autoridades de defesa ucranianas, que apontam que África tem sido alvo de promessas de empregos no exterior que acabam conectando pessoas a operações de combate. A inteligência ucraniana afirma que Mogesa carregava passaportes de dois outros quenianos no momento da morte, indicando possível destino a futuras ofensivas.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, Moscou tem recorrido a recrutamento de estrangeiros para manter o esforço de guerra. Além da África, há entradas de recrutados na Ásia, Oriente Médio e América do Sul, com estimativas de que 18.500 combatentes estrangeiros poderiam ser recrutados em 2026, sugerindo intensificação da estratégia.

Em África, o recrutamento acontece por redes informais que misturam promessas de emprego com caminhos que se confundem com tráfico humano. Nairóbi reconhece e condena a atuação de recrutadores russos no país, tornando a Kenia um caso de estudo sobre o fenômeno.

Estudos do Center for Strategic and International Studies e da defesa ucraniana apontam altas baixas no conflito, elevando a demanda por pessoal. A mobilização parcial de 2022 levou a maior dependência de contratados, com recrutas estrangeiros representando uma parcela residual do total.

Segundo a National Intelligence Service do Quênia, mais de 1.000 quenianos foram recrutados para lutar na Rússia. Até 18 de fevereiro, 39 estavam hospitalizados, 30 repatriados e 28 considerados desaparecidos em ações de combate. Mogesa é um dos casos confirmados de óbito.

As autoridades kenianas indicam que o pipeline de recrutamento envolve agências locais, algumas formais, outras informais, em cooperação com redes na Rússia e no Oriente Médio. Ofertas costumam incluir salários de cerca de 2.700 dólares por mês, bônus de assinatura e, às vezes, promessa de cidadania rápida.

Muitos recrutados chegam acreditando que vão exercer funções civis, como motorista, cozinheiro ou trabalhador hoteleiro, conforme relata Fred Ojiro, da ONG Vocal Africa. Ojiro afirma que muitos não compreendem os riscos envolvidos.

Em contraste, a pesquisadora Pauline Bax, da International Crisis Group, ressalta que nem todos recrutados são forçados; a falta de empregos e a chance de obter vistos para a Rússia aparecem como fatores. A dúvida sobre os riscos é comum entre os migrantes.

O ecossistema de recrutamento opera de forma ampla, usando redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos de guerra simulados. A rede envolve agências em Ghana e Nigéria, intermediários em Moscou e laços com o grupo Wagner e suas estruturas ligadas na África.

Relatos de cooperação entre recrutadores e autoridades locais são frequentes, com investigações de corrupção em aeroportos e órgãos de imigração. Em alguns casos, recrutadores desviaram rotas para facilitar saídas, passando por países vizinhos.

A Embaixada da Rússia em Nairóbi afirmou que não há recrutamento ilegal de cidadãos kenianos e que estrangeiros podem se alistar se estiverem legalmente presentes na Rússia. Dados oficiais, porém, indicam casos de quênianos lutando na Ucrânia.

Casos de famílias e governos que respondem variam entre países africanos. África do Sul atuou para facilitar a libertação de 17 cidadãos sob contratos com unidades russas, enquanto Botsuana informou sobre jovens enganados que buscavam repatriação. Outros governos têm atuação mais contida.

Alguns especialistas apontam que a dependência de cooperações militares, grãos e fertilizantes russos pode dificultar ações mais firmes por parte de governos africanos. A falta de capacidade institucional para monitorar cidadãos no exterior também é apontada como entrave.

Para quem retorna, programas de reintegração e suporte psicológico são recomendados. No Quênia, investigações planejam registrar depoimentos de retornados com trauma, com foco inicial em mapear redes de recrutamento e coletar informações.

Enquanto isso, famílias como a dos Mogesa aguardam respostas oficiais para a repatriação de Clinton. O irmão de Clinton, Vincent, afirma que o processo está parado e que a família espera apoio do governo para o enterro no país.

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