- Pouco apoio entre especialistas em Oriente Médio para iniciar guerra contra o Irã: 5% disseram ser favoráveis antes do ataque e 1% achavam que poderia surgir um regime democrático pró-EUA.
- 94% dos especialistas acreditavam que a abordagem do governo Trump tornaria a guerra mais provável.
- Sobre um possível acordo nuclear, apenas 1% considerou muito provável antes, e após o início dos combates a percepção de acordo muito improvável subiu de 26% para 62%.
- Em relação ao regime iraniano, 51% esperavam que ele sobrevivesse parecido com o pré-guerra; 18% previam autocracia anti-Americana e 21% falha do Estado ou guerra civil.
- 84% dos especialistas consideraram provável instabilidade de regimes nos próximos cinco anos em ao menos um dos sete países analisados, com grande foco no Irã (passou de 44% para 58% após o conflito).
Durante a leitura de resultados de uma pesquisa anual, acadêmicos que estudam o Oriente Médio apresentaram um conjunto de avaliações distintas das decisões políticas dos governos dos EUA e de Israel durante o conflito com o Irã em 2026. O levantamento, realizado entre 19 de fevereiro e 11 de março, acompanhou o início da guerra e contou com 641 respondentes, majoritariamente residentes nos Estados Unidos. O objetivo é entender perspectivas de especialistas frente ao desenrolar do conflito.
Os pesquisadores são vinculados a associações como a American Political Science Association, a American Historical Association, a Middle East Studies Association e ao Project on Middle East Political Science. O estudo integra o Middle East Scholar Barometer, que já ocorre desde 2021, com edições semestrais ou anuais. O momento da pesquisa permitiu avaliar mudanças de opinião após o início dos combates.
O conjunto de respostas aponta que apenas 5% dos especialistas apoiaram a ideia de iniciar uma guerra contra o Irã nos dias que antecederam os ataques em 28 de fevereiro. Além disso, 1% acreditava que uma ofensiva ampla resultaria na instalação de um regime democrático pró-EUA no Irã. Por outro lado, 94% suspeitavam que a abordagem do governo Trump aumentava a probabilidade de guerra.
Resultados sobre clima político e nuclear
Antes do confronto, 1% dos respondentes via a chance de um acordo nuclear muito provável, e 21% o viam como algo um pouco provável. Com o início do conflito, a expectativa de acordo caiu, indo de 26% para 62% de considerar muito improvável um acordo. A pesquisa também mostrou ceticismo quanto a mudanças rápidas de regime no Irã.
Metade dos acadêmicos esperava a continuidade do regime iraniano, mesmo após a guerra, numa forma anterior ao conflito. Ao mesmo tempo, 18% previam o surgimento de uma nova autocracia antiamericana e 21% previam falha estatal e guerra civil. As variações entre respostas pré e pós-ataques foram pequenas para esse conjunto de cenários.
A percepção sobre o desfecho nuclear também foi majoritariamente pessimista. Quase metade dos entrevistados acreditava que a guerra poderia atrasar temporariamente o programa nuclear, mas apenas 6% esperavam um retrocesso de longo prazo. Trinta e um por cento previam aceleração nuclear, longe de um freio estável.
Percepções sobre estabilidade regional e alianças
Quanto à estabilidade de sete países da região (Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Turquia, Irã, Síria e Iraque), 84% dos especialistas consideraram provável instabilidade no Irã nos próximos cinco anos, um percentual que subiu de 44% para 58% após o início da guerra. Em contrapartida, as previsões de instabilidade nos demais países foram mais contidas.
Sobre alinhamento regional, 30% dos respondentes passaram a enxergar maior probabilidade de países árabes se alinharem com os Estados Unidos e Israel após a guerra, frente a 15% antes do conflito. Essa mudança indica uma percepção de maior necessidade de contraforte de segurança em certos Estados da região.
Self-censura e ambiente acadêmico
Antes do ataque, 17% dos respondentes já diziam sentir necessidade de autocensura sobre questões relacionadas ao Irã; esse índice subiu para 33% com o desenrolar dos acontecimentos, atingindo 40% entre norte-americanos. A explicação envolve pressão externa, clima político e riscos institucionais, segundo os pesquisadores.
Os pesquisadores ressaltam ainda que, historicamente, acadêmicos enfrentam menos influência de governos do que a cobertura midiática sugere, mas que o atual contexto de guerra intensifica pressões e autocensura. Em particular, observou-se maior censura entre temas do Irã do que no debate israel-palestino, ainda que haja convergência de receios entre críticas a políticas regionais e governamentais durante conflitos.
De modo geral, o levantamento evidencia que especialistas estudando a região tiveram maior precisão em antecipar margens do conflito que analistas políticos e divulgadores, especialmente quanto à viabilidade de acordos e à natureza do regime iraniano. As informações ajudam a entender o contraponto entre previsões acadêmicas e decisões de políticas externas.
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