- Três países da região—Chile, Argentina e Bolívia—tomaram ações em março que desafiam interesses brasileiros e podem dificultar a reeleição de Lula.
- Chile: o presidente José Antonio Kast convidou Flávio Bolsonaro para a posse; Lula cancelou a viagem na última hora.
- Flávio Bolsonaro desfilou em Valparaíso e Santiago, recebeu saúdes de líderes internacionais e concedeu entrevistas, criticando Lula.
- Argentina: governo argentino concedeu refúgio a um brasileiro envolvido no golpe de 8 de janeiro de 2023, apesar de críticas a informações usadas por fontes da extrema direita brasileira.
- Bolívia: o presidente Rodrigo Paz Pereira, em visita a Brasília, classificou facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, ecoando iniciativas de classificá-las como narcoterroristas internacionais defendidas por autoridades norte-americanas.
Três presidentes de direita ou de extrema direita na América do Sul adotaram em março ações que desafiam interesses brasileiros e ampliam o terreno da campanha de reeleição de Lula, marcada por um viés internacional. O cenário sugere um acirramento das disputas externas antes das eleições de outubro.
No Chile, o presidente José Antonio Kast convidou Flávio Bolsonaro para a posse, marcada para 11 de março. Lula cancelou a viagem pouco antes do evento. Em Valparaíso, Flávio recebeu homenagens e concedeu entrevistas, criticando a gestão de Lula.
Na sequência, o governo argentino concedeu refúgio a um brasileiro ligado ao golpe de 2023, conforme apuração do UOL. A decisão resultou de uma avaliação de perseguição política no Brasil, embora haja controvérsia sobre a responsabilização de golpistas no contexto regional.
A prática de acolhimento ocorreu mesmo diante de controvérsias sobre as fontes e a veracidade de certas informações associadas ao brasileiro citado. A decisão argentina não partiu do presidente Milei, mas de um órgão sob controle de ministros do governo.
Mudanças significativas no tabuleiro regional
Poucos dias depois, o presidente boliviano Rodrigo Paz Pereira, em visita a Brasília, classificou facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A declaração dialoga com uma linha defendida por autoridades dos EUA, que estudam designar o PCC e o CV como organizações narcoterroristas internacionais.
O governo de Lula contesta essa linha por dois motivos: pela tradição diplomática brasileira e por temer que a classificação sirva de pretexto para pressões externas semelhantes às vistas em outros contextos regionais, o que poderia afetar a disputa eleitoral.
Implicações para a política externa e o debate eleitoral
Especialistas indicam que a política externa não costuma dominar o eixo do debate eleitoral, mas o tema passa a repercutir no eleitorado ao discutir segurança e atuação internacional. Um conteúdo que envolve terrorismo pode ampliar o alcance do debate externo entre eleitores.
Para o analista, o impacto de Kast e Milei no pleito nacional tende a ser limitado, ainda que contribuam para criar um ambiente desafiador para Lula no Cone Sul. O protagonismo de Flávio Bolsonaro ficou mais discreto no Chile, e Milei enfrenta desgaste por reformas impopulares.
O movimento regional coincide com uma percepção de fortalecimento de alas de direita na América do Sul, em sintonia com uma pressão externa mais interventiva. Lula tenta manter um discurso nacionalista sem abrir espaço para acusações de alinhamento com governos estrangeiros.
João Paulo Charleaux, jornalista, destaca que o país vive um momento em que interesses políticos e estratégicos se cruzam com questões de democracia e segurança. A avaliação é de que o tema pode influenciar o delineamento das alianças regionais até outubro.
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