- Matthias Schmale, chefe da ONU na Ucrânia, diz que os ucranianos estão cansados e querem que o conflito termine, mas não a qualquer preço; Justiça é essencial para a paz.
- A ONU antevê um grave desastre humanitário neste inverno e vê a necessidade de proteger os mais vulneráveis, especialmente perto da linha de frente de cerca de 1.700 quilômetros.
- Cerca de meio milhão de pessoas na linha de frente precisam de apoio; mais de 3.000 edifícios em Kiev ficaram sem fornecimento de energia e calor.
- Com queda de financiamento dos Estados Unidos, ONGs locais sofrem, afetando serviços para violência de gênero, minorias e imprensa independente; a ONU precisa priorizar ações.
- Desafios atuais incluem deslocamento interno (aproximadamente 3,7 milhões), moradia digna, continuidade de serviços públicos e preparação para uma recuperação que deve envolver setor público e privado por anos.
Matthias Schmale, chefe da ONU para a Ucrânia, admite que a população está exausta após quatro anos de conflito, mas ressalta a necessidade de justiça para alcançar a paz. Em Kiev, durante entrevista, ele aponta que a ajuda humanitária é vital neste inverno e que a percepção positiva da atuação da ONU não substitui o imperativo da responsabilização.
O diplomata alemão, natural de Botswana e com 63 anos, descreve o cenário atual como um equilíbrio entre cansaço e resistência. A ONU enfrenta, a curto prazo, um gravíssimo desastre humano neste inverno, agravado pela guerra de energia que atinge cidades e milhares de residências. O foco permanece em quem fica, especialmente os idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
Schmale destaca que cerca de meio milhão de pessoas vivem perto da linha de frente, em uma frente de 1.700 quilômetros. O combate ao frio, à falta de energia e à escassez de recursos é contínuo, com mais de 3 mil edifícios em Kiev sem fornecimento de aquecimento ou eletricidade durante parte do inverno.
Na avaliação dele, o ânimo da população é de resiliência, mas não de romantização. As pessoas demonstram força, inclusive com pequenas festas em vias públicas, mas todas desejam que o conflito termine sem abrir mão da justiça. O diplomata enfatiza que a paz sem justiça não é aceitável.
O número de vítimas civis aumentou no último ano, segundo o representante. A guerra é descrita como cada vez mais tecnológica, com uso intensivo de drones que intensifica os ataques noturnos. Enquanto negociações entre Ucrânia e Rússia avançam, as operações militares buscam vantagem estratégica para a mesa de negociações.
Sobre o financiamento externo, Schmale aponta que a redução de recursos, principalmente vindo dos Estados Unidos, afeta a atuação de ONGs que atuam no terreno. Organizações locais, incluindo aquelas que trabalham com violência de gênero e minorias, sentem o impacto de cortes de apoio e de mídia independente. A ONU busca manter o nível de serviço com equipes reduzidas.
Apesar dos ajustes, as necessidades básicas — como alimento, água, roupas de abrigo e aquecimento — continuam atendidas, porém a saúde mental da população sofre com a crise prolongada. O responsável lembra que o peso psíquico se agrava à medida que o conflito se estende.
Entre os próximos passos, Schmale afirma que a reconstrução exigirá anos, com investimento público em infraestrutura e mecanismos que incentivem o retorno da população a uma vida estável. O papel do setor privado é considerado essencial, mas dependente do funcionamento da paz.
Sobre o papel da ONU, o diplomata cita críticas de líderes mundiais à instituição, incluindo questionamentos sobre sua eficácia. Ele aponta que, mesmo com ceticismo, há reconhecimento da ajuda humanitária em território ucraniano, destacando a importância de reformas para melhor atuação.
Ao falar de sua experiência de campo, Schmale cita histórias de heroísmo, como uma trabalhadora humanitária que protege crianças após ataques e volta rapidamente a ajudar a comunidade. Ele lembra que a recuperação histórica do país levará tempo suficiente para exigir apoio contínuo.
Por fim, o chefe da ONU ressalta a busca por justiça em casos de crimes de guerra. A documentação e a responsabilização são vistas como cruciais para qualquer caminho duradouro de paz. A continuidade da vigilância internacional é destacada como necessária para manter a Ucrânia na agenda global.
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