- Relatório da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul confirma parte das acusações de propina envolvendo a Aegea, com declarações de executivos da empresa.
- Ao menos 4,5 milhões de reais saíram da empresa e chegaram a diversos destinos, incluindo 1,4 milhão para o MDB nas eleições de 2012.
- Houve a venda de uma estação de tratamento de esgotos em Dourados, por 4,5 milhões de reais, a Águas de Guariroba, mas ninguém sabe onde fica a ETE nem se ela existiu.
- Foram apontados contratos fictícios de locação de equipamentos, somando cerca de 30 milhões de reais, realizados entre 2011 e 2015 para justificar repasses.
- O Ministério Público deve decidir se oferece denúncia contra os investigados; a Polícia Civil também indicou indícios de desvio e lavagem de dinheiro e pediu abertura de novo inquérito.
Relatório da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul aponta que parte das declarações de executivos da Aegea sobre propina a políticos é corroborada pelo material apurado no estado. Segundo o documento, ao menos 4,5 milhões de reais teriam saído da empresa e chegado a diferentes destinatários, com 1,4 milhão destinado à campanha do MDB em 2012.
O depoimento de Amadeo, prestado em março de 2020, relata que foi abordado em 2011 pelo empreiteiro João Amorim para pagamentos ao grupo político do então prefeito de Campo Grande, Nelsinho Trad. A finalidade seria financiar campanhas de 2012 e de 2014, segundo o relato.
A investigação, concluída em 2025 pela Dracco, indica que Amorim recebeu valores da Aegea sem prestação de serviço correspondente, em operações iniciadas com a compra de uma estação de tratamento de esgotos em Dourados por 4,5 milhões de reais. A ETE não tem localização definida e não há confirmação de existência do equipamento.
A compra foi feita pela Águas de Guariroba, empresa da Aegea, conforme atestam os investigadores. Embora tenha havido minuta de nota preparada pela Aegea para esclarecer o local da ETE, o documento foi suprimido, alegando abrir outra frente de problemas, conforme o relatório.
Pagamentos ocorreram em setembro de 2012, próximos das eleições, com recursos chegando à empresa Proteco, de Amorim. Parte do montante, 1,4 milhão, foi direcionada ao MDB nas eleições de 2012. Outra parcela, 1,18 milhão, foi sacada em espécie por meio de saques fracionados, totalizando 1,18 milhão, conforme o relatório.
A apuração também aponta que a conta pessoal de Amorim recebeu 1,2 milhão, distribuídos em cheques de 99 mil reais. Não ficou claro se o dinheiro ao MDB ingressou por caixa 2 e quais candidaturas foram beneficiadas. Na época, Nelsinho Trad deixava a prefeitura e Giroto disputava a vaga.
Dados da apuração indicam ainda pagamento de 770 mil reais da Equipav, grupo da Aegea, ao MDB em 20 de setembro de 2012, registrado na Justiça Eleitoral. A reportagem do UOL procurou o MDB estadual e o diretório nacional, que não confirmaram os pagamentos.
A Polícia Civil indiciou Amorim e José João da Fonseca (conhecido como JJ) por desvio e lavagem de dinheiro. O senador Nelsinho Trad afirmou que não há investigação relacionada a ele no STJ ou na PGR envolvendo as declarações mencionadas.
Em depoimento anterior, Amadeo afirmou que o supervisor Santiago Crespo participou das tratativas de pagamento. Também surgem relatos de contratos simulados entre 2011 e 2015, com valor total de até 30 milhões, usados para justificar repasses a Amorim. A verificação envolve contratos de locação de equipamentos entre Proteco e ASE, controladas por Amorim.
A Dracco aponta que a Águas de Guariroba efetivou pagamentos à Proteco em 2012 e 2013 para aluguel de máquinas, mas sem comprovação de entrega de serviços. Documentos indicam divergências entre cartas da Aegea sobre o aluguel e registros prévios que sugerem que os gastos teriam sido usados para reduzir impostos.
Ao final, o Ministério Público deve decidir se apresenta denúncia. A Dracco também solicita abertura de novo inquérito para investigar repasses do grupo Aegea ao filho do ex-governador André Pulcinelli, relacionado a compras de livros com fim institucional.
O UOL buscou respostas com o ex-governador Pulcinelli e com o próprio MDB. Parte das informações foi confirmada pela polícia, enquanto a defesa e a empresa não comentaram amplamente os valores nem as investigações. A Aegea publicou comunicado à bolsa afirmando compromisso com ética e integridade, sem responder a todas as perguntas da reportagem.
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