- A frase “the time of monsters” é amplamente usada para indicar o momento atual, mas não aparece nos escritos de Gramsci como está.
- A primeira ocorrência em inglês ligada a Gramsci foi em 2010, em um artigo de Slavoj Žižek, que afirmou ter pego a ideia de outra fonte, sem confirmar.
- Versões francesas anteriores já haviam utilizado expressão semelhante; Massiah escreveu algo como “dans cet interrègne surgissent les monstres” em 1996.
- Nos cadernos carcerários de Gramsci, o trecho original em italiano é “In questo interregno si verificano i fenomeni morbosi più svariati”, geralmente traduzido como “uma grande variedade de sintomas mórbidos”, sem referência a monstros.
- Pesquisadores destacam o poder atual da ideia de Gramsci sobre hegemonia para explicar lutas culturais e políticas, mas alertam que a formulação popular não reproduz exatamente o que ele escreveu.
O que circula nas redes não é a fala original de Gramsci. A expressão atribuída a ele, The time of monsters, não aparece em seus cadernos, nem na forma curta que ganhou viralidade. Trata-se de uma construção poética usada para traduzir a percepção de um momento conturbado.
Ao longo de meses recentes, a frase foi atribuída a diferentes figuras políticas e intelectuais, em contextos que vão de chefes de governo a pensadores de esquerda. No entanto, não há registro canônico de Gramsci ter escrito ou dito exatamente essa formulação.
O que se encontra nos cadernos de prisão de Gramsci são notas sobre o interregno, com menções a fenômenos mórbidos que surgem em tempos de transição. A tradução mais comum cita sintomas variados, sem qualquer referência direta a monstros.
Origem da expressão e seus desdobramentos
A primeira ocorrência em inglês associada ao termo aparece em um artigo de Slavoj Žižek de 2010, em que o trecho é usado para comentar crises econômicas. O filósofo afirmou não lembrar da origem exata, sugerindo ter ouvido a expressão de terceiros.
Antes disso, versões em francês já apareciam em debates sobre períodos de crise. Em textos franceses, surgiam leituras que falavam de monstros surgindo em momentos de clareza tênue entre velhos e novos regimes.
Especialistas ressaltam que Gramsci ganhou projeção global apenas após a Segunda Guerra, com traduções que popularizaram conceitos como hegemonia. A ideia central é entender como elites mantém poder pela cultura, não apenas pela coerção.
Mesmo com a popularização, a origem da expressão permanece incerta. Pesquisas indicam variações de tradução, como a menção a morbididade ou fenômenos, sem chegar a descrevê-la literalmente como monstros.
Por que o tema permanece relevante
O debate sobre Gramsci continua forte em círculos acadêmicos e ativistas. Suas ideias sobre cultura, poder e consenso influenciaram movimentos estudantis e correntes de pensamento ao longo das décadas.
Autoras e autores contemporâneos destacam a utilidade do conceito de hegemonia para entender disputas políticas atuais. Em vez de aceitar slogans, a leitura crítica busca a relação entre ideologia, imprensa e governos.
Profissionais destacam que a expressão popular atual não substitui a análise original das Notas de Prisão. Mesmo assim, o recurso poético ajuda a traduzir a sensação de uma era de transformação e incerteza.
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